sexta-feira, 26 de junho de 2015

Fotos coloridas no Facebook, casamentos no Seridó e suas histórias

No momento em que a Suprema Corte aprova o casamento gay e as pessoas estão mudando a  cor da imagem do facebook, lembrei de uma parte da minha pesquisa na qual abordei como eram os casamentos no século XIX,  no Seridó.


Para vocês terem uma ideia as jovens que não casavam eram enviadas para o convento. O matrimônio representava, para a mulher, uma provável emancipação a qual, na verdade, significava somente uma permuta de tutelas, do pai para o marido. Quando alguma mulher, considerada de classe social inferior, praticava relações sexuais antes do casamento, geralmente, caiam no mundo da prostituição. Já as mulheres de classes mais abastadas, passavam a ser discriminadas na sociedade e na família, constituindo-se como um ser infame.
A maior parte dos casamentos eram “[...] antes de tudo um compromisso familiar, um acordo, mais do que um aceite entre esposos.” (FALCI,2011,p. 256).Ou seja, o casamento era antes de tudo um acordo entre duas famílias, no qual os pais dos noivos buscavam conservar os bens das famílias  e consolidar os laços de amizade entre elas. Assim, os casamentos aconteciam na maioria das vezes sem sentimento algum “[...] ocorrendo dos noivos se avistarem pela primeira vez no dia da cerimônia.” (FARIA, 2006, p.59) A beleza não era condição para que o homem a namorasse, contudo o dote dado pela família da moça era o motivo principal para que existisse o namoro. No tocante, as cerimônias de casamento
[...] das filhas dos fazendeiros mais abastados eram celebrados na fazenda dos pais e nunca na igreja da freguesia em que residiam.
Determinado o dia da cerimônia, os preparativos para a festa começavam com bastante antecedência. Eram convidados pelos pais dos noivos todos os parentes próximos e amigos [...]
Na véspera matava-se uma novilha gorda, carneiros, porcos (para a fabricação de lingüiça), perus e galinhas – ocupando toda uma legião de cozinheiras e doceiras afamadas que comandavam varias auxiliares. Na sala, era armado o altar e enfeitado a capricho pelas mãos mais prendadas. Os agregados providenciavam o corte da lenha da cozinha e jarras e mais jarras abarrotadas d’ água.
Uma ou duas horas depois era servido o banquete, com uma variedade imensa de pratos e bebidas, inclusive o aluá, fabricado de milho fermentado. Durante o banquete, faziam-se ouvir alguns oradores onde muitos repetiam discursos decorados [...]
Terminadas as refeições, depois de um ligeiro descanso, começavam-se as danças [...] 
O baile começava sempre com uma quadrilha, dançando o noivo com a noiva e costumava se prolongar até o amanhecer do dia [...] (FARIA, 2006, p.59-61)

O casamento só poderia ocorrer com a autorização dos pais, entretanto muitas jovens casavam sem essa permissão e perdiam o direito a herança. Já outras moças não aceitando casar com o conjugue escolhido pela família e com receio de ser deserdada encontraram no “rapto consentido” a resolução para o empecilho. Nesse sentido, tudo era combinado,
[...] quase sempre por intermédio de uma mucama ou escrava da casa. Raptada a moça, era depositada pelo noivo na casa de um amigo da família que ao amanhecer do dia, dirigia-se à casa do pai da noiva para comunicar-lhe o ocorrido. Neste caso o casamento era realizado na casa da pessoa onde se encontrava a moça.”(FARIA, 2006, p.59)

Assim, encontramos no Jornal “O Povo” que uma moça, de 14 anos, foi raptada no dia 16 de julho de 1890, em Caicó, e levada para a casa do major Salviano Batista pessoa importante da cidade. O rapaz que raptou a moça era “[...] um alugado do mesmo major [...] (JORNAL O POVO, 24/08/1890)”. Ainda conforme, nota do Jornal o tio da moça era seu tutor e não autorizava o
[...] casamento, porque o rapaz não lhe merece a sobrinha, requereu ao juiz de órfãos, dr. José de Sá, que lhe mandasse entregar. O juiz, depois de muito cogitar, escreveu no requerimento – indeferido – e por isso ficou a moça no depósito, sem se efetuar o casamento. Agora o major Salviano ameaça o tutor de o demitir (!) para nomear outro, e fazer-se o casamento. Teremos esta demissão – ex-informantará conscientiá?(O POVO, 24/08/1890)


Agora fico aqui imaginando como os historiadores do próximo século vão contar a história do casamento gay? Será que as imagens coloridas do facebook serão fontes de pesquisa?

Trecho da minha dissertação A Representação das Mulheres e as Questões de Gênero na Toponíma Urbana de Caicó-RN. Disponível em: http://repositorio.ufrn.br:8080/jspui/bitstream/123456789/16979/1/ClaudiaMA_DISSERT.pdf
Imagens do Google

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