quinta-feira, 25 de junho de 2015

Quando o setor de turismo vai acordar para as Pessoas com Deficiência e idosos?

Para muita gente o mês de julho, é o momento de arrumar as malas e sair por aí, conhecendo novos lugares e pessoas.  Até mesmo para as 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Conforme, Laura Martins, autora do blog Cadeira Voadora cada vez mais as pessoas com deficiências – e os idosos – têm poder aquisitivo para viajar e ter lazer.

Na mesma proporção, cresce o nível de reivindicações quanto à acessibilidade e à qualidade dos serviços oferecidos. Então, se você gosta de viajar ou trabalha na área do turismo não deixe de ler a entrevista da Blogueira que busca estimular Pessoas com Deficiência a viajar.



Quem é Laura Martins?

Sou uma pessoa cheia de entusiasmo, amo a vida e adoro conhecer pessoas e novas culturas. Uso cadeira de rodas porque tive uma inflamação na medula quando criança. Embora a deficiência física sempre tenha constituído um grande desafio, ela não me impediu de realizar meus sonhos. Tenho uma vida muito rica e feliz: convivo com pessoas queridas, tenho minha profissão, dirijo, namoro, faço atividades físicas e trabalho voluntário, estudo, viajo… e tenho um blog que curto demais!

Você é a autora do blog “Cadeira Voadora”, o qual se constitui como um tipo de diário de bordo que fala da acessibilidade pelos lugares que você já viajou. Quando e como surgiu a ideia do blog?

Surgiu da necessidade de refletir sobre o universo da pessoa com deficiência e também do desejo de compartilhar narrativas de viagem, a fim de estimular mais e mais pessoas com deficiência a criarem confiança nas próprias asas e deixarem seu porto seguro, se aventurando por novas terras.



Você sempre gostou de viajar?

Não. A princípio, as viagens eram muito desconfortáveis para mim e muito caras. De uns anos para cá, o custo caiu muito, e o conforto para as pessoas com deficiência física tem aumentado progressivamente, embora ainda deixe muito a desejar.

Além disso, eu era muito ansiosa, o que não combina com o gosto por viagens. Afinal, quando viajamos é preciso respeitar o tempo das coisas: do próprio percurso e das outras pessoas com as quais lidamos. Viajar é um aprendizado de paciência.

Na hora de programar suas viagens você procura uma agência de turismo ou você mesmo monta seu “pacote especial”?

De modo geral, eu mesma monto meu “pacote”. Faço tudo: desde a aquisição das passagens até a reserva do hotel e o planejamento do roteiro. Mas não aconselho que as pessoas façam isso se não tiverem familiaridade com internet e muita paciência, curiosidade e ânimo.

Eventualmente recorro a agências de viagem, quando estou muito cansada ou sem tempo para fazer investigações e contatos por conta própria. Mas é preciso ter em mente que recorrer a agências não tira a responsabilidade da pessoa com deficiência de comunicar com clareza suas necessidades e acompanhar passo a passo todo o processo de montagem do pacote, para diminuir as possibilidades de ter surpresas desagradáveis.



De todos esses lugares que você já conheceu qual o que mais te encantou? E por que?

Paris me encantou pela beleza arquitetônica e pelo charme. Genebra me encantou pela organização: tudo funciona. Aruba me encantou pela beleza das praias e pela alegria de sua gente. Nova York me encantou pela vibe e pela quantidade de apresentações musicais de qualidade que acontecem nas ruas. Chennonceau, na França, me encantou pela paisagem deslumbrante: é um castelo construído no leito do rio, cercado por jardins e por um bosque.



Você viaja sozinha?

Viajo sim, embora não com frequência, porque não é simples. Requer um planejamento muito mais minucioso.

Já passou por alguma situação difícil por estar em um lugar não preparado para receber uma pessoa com deficiência?

Já passei por inúmeras situações difíceis e tive de, muitas vezes, contar com ajuda de estranhos para contorná-las. As situações vão desde não encontrar banheiro acessível até a bateria da cadeira de rodas motorizada acabar… Também já fiquei em hotel que se dizia adaptado, mas eu não conseguia passar pelo box do banheiro, de tal maneira ele era estreito. Outra situação desafiadora foi agendar transfer acessível para ir do aeroporto de Porto Alegre até a cidade de Gramado e aparecer um ônibus sem nenhum acesso. Enfim, são muitos os perrengues, mas nenhum deles inviabilizou a viagem.


Que locais brasileiros visitados por você são considerados acessíveis, e quais você recomendaria a um colega?

Não conheço um local no Brasil sem problemas de acessibilidade, mas considero os seguintes bastante razoáveis: São Paulo, João Pessoa, Gramado.


Que outros países o Brasil poderia tomar como exemplo para fundamentar suas ações visando a acessibilidade no turismo? Por quê?

Países que passaram por guerras costumam ser bastante acessíveis, até porque as pessoas que voltam feridas exigem a acessibilidade. É o caso dos Estados Unidos e da Alemanha, por exemplo. Tenho notícias de que algumas cidades da Espanha também são bastante acessíveis, como Barcelona. Nesses locais, o transporte público é acessível, as calçadas são rebaixadas, os edifícios públicos são acessíveis. Praias têm acessibilidade há muitos anos, em diversas cidades da Europa e dos EUA…



É possível uma pessoa com deficiência viajar sozinha, com segurança e pagando a mesma quantia que uma pessoa sem deficiência?

É possível viajar sozinha dependendo da autonomia. Cada caso é um caso.

Viajar com segurança é algo relativo: os equipamentos para cadeirantes que encontramos em diversas cidades não me parecem muito seguros, e não somente no Brasil. Em Lisboa e Buenos Aires, por exemplo, tive de usar plataformas elevatórias que não poderiam ser consideradas seguras de forma alguma – e não havia ninguém para me auxiliar. Em algumas cidades, apesar de haver acessibilidade no metrô, ele não é seguro, ou por causa da distância entre a plataforma e os carros, ou porque há instabilidade durante a viagem. Tudo isso tem de ser considerado.

Quanto ao investimento financeiro, não me parece possível pagar a mesma quantia que uma pessoa sem deficiência. Mas tudo vai depender das limitações físicas de cada um. Por exemplo: é raro encontrar transporte acessível para ir do aeroporto até o hotel e vice-versa. Então, pode ser preciso recorrer a táxis. Outra coisa: nos hotéis, em geral os quartos adaptados são os de categoria superior, pois o apartamento standard costuma ser diminuto e não oferece espaço suficiente para circulação, nem para as adaptações. Então, não é que o quarto para cadeirantes seja mais caro que os comuns; o que ocorre é que não há quartos mais baratos que sejam adaptados.



Que mensagens você deixaria para os nossos leitores, proprietários de agências de turismo, hotéis, pousadas e políticos?

Para os leitores com deficiência: não deixem o medo paralisar a concretização dos seus sonhos. Informem-se, planejem, criem coragem e batam as asas, mesmo que haja dificuldades. Cada um de nós que deixa o lar e coloca a cara na rua faz pressão para que a sociedade seja mais inclusiva.

Para as demais pessoas: uma sociedade preparada para incluir a pessoa com deficiência é uma sociedade melhor para todos. Ninguém sabe se vai ter alguma deficiência algum dia, seja transitória ou permanente. Além disso, vamos ficar idosos e precisar de maior acessibilidade. Sem esquecer de mencionar as necessidades das pessoas que circulam com carrinhos de bebê.
Com relação ao turismo, felizmente, na atualidade, cada vez mais as pessoas com deficiências – e os idosos – têm poder aquisitivo para viajar e ter lazer. Quando é que o setor de turismo vai acordar para isso? Está perdendo dinheiro e não percebe. E um alerta: não adianta fazer maquiagem e fingir que os locais estão sendo adaptados. As pessoas estão mais bem-informadas e mais conscientes. Não estão aceitando ser iludidas.

E aí, pessoal, gostaram do tema da entrevista? E que tal, montarmos na página do facebook um álbum de leitores do Blog De Papo com Cláudinha com fotos de suas viagens?

A ideia é dividir experiências dando dicas e nos revelando suas próprias experiências durante os passeios. E aí, o que vocês acham da ideia? Deixa aqui nos comentários!

Bjos!!

Imagens do Arquivo de Laura Martins

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