quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Jornalista e... surdo

Relendo as histórias, maravilhosas, que o Jairo Marques conta no seu blog encontrei a do jornalista José Petrola. Mas, tenho que confessar que eu não lembro de ter lido, em 2012, o  post desse  jornalista que é surdo.
Madri
Com certeza, vocês já estão se perguntando como é possível um repórter ser surdo? Como ele faz as entrevistas? Bem, algumas dessas perguntas já tinham sido respondidas a Jairo Marques aqui, mas isso já faz três anos e muitas coisas aconteceram no Brasil e no mundo e provavelmente na vida do José. Por isso, o chamei para ele nos contar. 
Quem é José Ismar Petrola? 
Difícil definir... Sou jornalista e escritor, paulistano morando há três anos no Rio de Janeiro, um cara apaixonado por viver e viajar – sozinho, para longe, ao estrangeiro, descobrindo novos mundos... Talvez porque eu sou surdo, digam que sou um herói, mas não é nada disto, apenas levo normalmente a minha vida. Moro sozinho, tenho um trabalho, pratico esportes, tenho uma vida social, bons amigos que sempre encontro em São Paulo ou no Rio. Estou aqui para dizer que sim, eu consigo.
Fale-nos sobre sua deficiência e como seus familiares e amigos “digeriram” a tudo isso? 
R: Tenho surdez neurossensorial bilateral. A perda auditiva é de cerca de 75% nos dois ouvidos. A minha deficiência foi descoberta logo que nasci, comecei a usar aparelhos auditivos com 1 ano e meio. No começo, é claro, a reação é de choque, mas os meus pais procuraram desde cedo os melhores acompanhamentos. A minha mãe se preocupava bastante com a minha independência no futuro e procurou fonoaudiólogas e otorrinos para que eu pudesse aprender a ouvir e falar com o auxílio dos aparelhos auditivos. Então, digo que tive um apoio total da minha família e que isso foi muito importante para que eu pudesse ter um processo bem-sucedido de oralização, para aprender a me comunicar oralmente e ter uma independência. É importante destacar isto, sou um surdo oralizado, a minha vida toda usei o português como meio de comunicação, nunca aprendi um sinal de Libras, nem mesmo o sinal para dizer que não sei.
Um problema comum quando uma criança nasce com uma deficiência é que às vezes a família tem uma expectativa muito baixa com relação à criança e trata coisas do cotidiano, como conseguir sair sozinho de casa para o mercado, como se fossem uma grande conquista. Há uma tendência às vezes de superproteger a criança e não preparar para a realidade. A minha mãe era bem consciente disso e evitava, mas é uma questão frequente e afeta muito a autoestima de quem nasce com uma deficiência. Eu mesmo me incomodava um pouco com essa postura de proteção, às vezes havia um cuidado excessivo, do tipo não deixar jogar bola ou mesmo descer uma escada sozinho para não cair e quebrar o aparelho auditivo, por causa disto às vezes eu me sentia inferior ou menos capaz. Quando fiquei mais velho e fui tomando consciência comecei a me desafiar e fazer coisas que antes eu achava perigosas pelo risco de queda ou contato do aparelho com a água, como aprender artes marciais, remar ou fazer trilhas. Então, apesar de todo o apoio, há sempre uma dificuldade maior ou menor de entender qual o real grau de limitação que a deficiência traz.


Como foi sua adaptação com o aparelho auditivo? Como ele funciona? 

R: Foi necessário todo um trabalho com a participação de fonoaudióloga e otorrino. Como eu uso desde 1 ano e meio de idade, não me lembro deste período inicial de adaptação. Mas precisei aprender a ouvir e falar, identificar os sons, melhorar a pronúncia, a articulação de cada letra. Eu me lembro de alguns exercícios e brincadeiras que eu fazia com a fono, de treinar a pronúncia dos sons, a fala. Para quem nasce surdo, os processos de ouvir e de falar não são naturais como para as outras pessoas, o meu cérebro processa o som de outra forma e eu também aprendi a falar mais tarde, sempre através de um som mais ou menos distorcido que os aparelhos auditivos me permitiam ouvir. É por isto que tenho um sotaque meio estranho, o característico “sotaque de surdo”, que no meu caso é leve, mas todo surdo oralizado tem em maior ou menor grau.
Basicamente, os AASI (Aparelhos de Amplificação Sonora Individuais) amplificam os sons para dentro do canal auditivo. São diferentes do IC (Implante Coclear), que é implantado por baixo da pele e transforma o som em estímulos elétricos que passam direto para o nervo auditivo. No meu caso, o mais indicado foi o AASI.  
Existem vários modelos de AASI, alguns mais e outros menos potentes. Os que eu uso são retroauriculares, o aparelho fica atrás do ouvido e é segurado por um molde feito de silicone. Há modelos, geralmente menos potentes, em que o aparelho (processador) fica dentro do próprio molde, que é duro. Os moldes são sempre feitos sob medida, pois o formato e tamanho de orelha varia para cada pessoa (por exemplo, crianças precisam trocar de molde com frequência à medida que crescem). Atualmente, quase todos os modelos disponíveis são digitais, que têm muito mais qualidade de som que os analógicos, e vantagens como diferentes programações de som para diversas situações – é possível, por exemplo, amplificar o som da voz humana e diminuir os outros ruídos para facilitar a conversação.


Qual a sua opinião sobre a tecnologia para surdos? 
R: Sou a favor de usar a tecnologia para dar autonomia aos surdos. Há alguns grupos que são contra o uso de tecnologia para ajudar surdos a ouvirem, pois isto supostamente “excluiria” o surdo de uma “cultura surda” baseada no uso das línguas de sinais. Eu acho que esse argumento não faz o menor sentido, pois uma cultura (no sentido antropológico do termo) não exclui a outra. Acredito - pela minha experiência de convívio com outros surdos - que o bilinguismo entre línguas orais e de sinais é a solução que dá mais independência ao indivíduo surdo. 
No caso dos surdos oralizados, como eu, vejo necessidade de divulgação de tecnologias para atender aos surdos que não entendem línguas de sinais. Um exemplo é o aro magnético (hearing loop), muito usado em cinemas, teatros e museus na Europa e praticamente desconhecido no Brasil, uma tecnologia de baixo custo que permite transmitir áudios para aparelhos auditivos como se fosse um microfone sem fio. Qualquer surdo que tenha um aparelho compatível com hearing loop poderia entrar num cinema e ouvir o som amplificado com melhor qualidade, sem ter que pedir autorização a ninguém (ao contrário do que acontece com transmissores FM ou bluetooth), o que dá mais independência. Da mesma forma, outras medidas de acessibilidade, como legendas em televisão e cinema, acabam sendo negligenciadas, devido à invisibilidade dos surdos oralizados. A sociedade ainda associa erronamente surdez e língua de sinais.
Barcelona
Como as pessoas reagem ao encontrarem um jovem rapaz utilizando aparelho auditivo?  
R: O aparelho é discreto, muita gente nem percebe que uso. Crianças em especial são bem curiosas, acho divertido explicar para elas, mesmo com a mãe morrendo de vergonha do lado... não vejo razão para ter vergonha, tomo a iniciativa de explicar e acredito que quanto mais se falar francamente sobre o assunto, melhor para a inclusão.
  
Por que você escolheu o jornalismo?
R: Sempre gostei muito de escrever e de ler jornal, acompanhar notícias, estar informado sobre o que acontece no mundo. Tenho uma facilidade muito grande para escrever rápido, editar bem um texto, gosto de ver um texto claro, que diz algo às pessoas. E acho que também tem a ver com essa minha curiosidade de viajar, conhecer outras realidades diferentes da minha. É lógico que quando a gente começa a trabalhar na profissão deixa um pouco de lado o idealismo, mas ainda acredito muito no papel do jornalismo para promover o debate público, e peguei um pouco dessa adrenalina de reportagem, de querer saber o que está acontecendo, correr atrás da informação o quanto antes. Mas essa curiosidade também tem muito a ver com a academia, com a pesquisa, sempre transitei muito entre os dois lados.


Como foi sua entrada no mercado de trabalho? 
R: Entrei no curso de jornalismo da USP em 2006 e me formei em 2010, neste período fiz estágios em web e rádio. Comecei a trabalhar de fato com jornalismo através do programa de trainee da Folha de São Paulo, que foi o meu primeiro contato com a profissão. Antes eu tinha feito estágios na universidade.
Uma coisa que eu percebi logo quando comecei a mandar currículos em busca de um estágio era que o meu currículo era mais valorizado quando eu não mencionava que tinha deficiência auditiva. Já passei por situações como ouvir numa entrevista que eu não poderia ficar com a vaga por causa da deficiência e no dia seguinte receber uma ligação da recrutadora dizendo que tinha mudado de ideia.
Na Folha, não foi o caso, pois tive a oportunidade de participar da seleção em pé de igualdade com os outros candidatos, e trabalhando no jornal pude contar com o apoio de colegas que também tinham alguma deficiência. Aliás, cheguei a trabalhar um tempo com o Jairo Marques, ele foi meu editor na Agência Folha e eu diria que um grande professor de jornalismo.
Esta primeira experiência foi ótima, porque tive uma oportunidade de trabalhar em igualdade com os outros, e como repórter sempre fui tão cobrado como os colegas que não tinham nenhuma deficiência. Diferentemente do que aconteceu em outros lugares onde trabalhei e onde já passei por situações de discriminação, que prefiro não comentar no momento.
Desde 2012, trabalho na Petrobras, no começo estive na área de comunicação e atualmente estou em Responsabilidade Social. Entrei através de concurso público, na ampla concorrência.
Paralelamente à minha carreira jornalística, também tenho uma carreira acadêmica. Entre 2011 e 2013, fiz um mestrado na ECA-USP, também na área de Comunicação. Pesquisei as influências entre teatro e jornalismo brasileiro nas décadas de 1950 e 60, a partir de documentos da censura ao teatro desta época (antes e o no início da ditadura militar). Sempre gostei de trabalhar com literatura e história, e aproveitei esta oportunidade que surgiu a partir de um projeto de iniciação científica que desenvolvi na graduação. À parte de tudo isto, no tempo livre, eu escrevo contos de ficção. Já tenho um conto, Aqui é Zona Sul, publicado na coletânea Sinistra 1, da editora Canhoto, que é um negócio bem independente, e pretendo lançar um livro em breve. Talvez por causa da própria surdez, sempre me voltei muito para as linguagens escritas, esta é a minha verdadeira paixão.


Como é exercer a função de repórter sendo surdo? 
R: Gracas aos aparelhos auditivos, consigo trabalhar normalmente, fazendo entrevistas pessoais ou por telefone. Nada me impede de participar de reuniões, coletivas ou ir à rua. É verdade que em algumas situações, como lugares com muito ruído, posso ter alguma dificuldade a mais, mas também é difícil para os ouvintes. Além disto, é preciso ter em mente que, num trabalho de repórter, usa-se todos os sentidos e não só a audição.


Qual sua opinião sobre a Lei de Cotas? 
R: Sou a favor da Lei de Cotas, pois força as empresas a incluir. Quando você tem uma deficiência, não é avaliado pelo seu currículo ou habilidades, pois os empregadores desconhecem o potencial dos profissionais que têm alguma deficiência. Porém, a lei precisa de aperfeiçoamentos para evitar distorções como a oferta de todas as vagas de cotas somente para cargos de baixa qualificação, o que deixa as pessoas com deficiência mais qualificadas (aquelas com graduação e pós, que são minoria mas existem) sem conseguir emprego em suas áreas. Falta um trabalho mais consistente de sensibilização de gerentes e profissionais de RH com relação às potencialidades da pessoa com deficiência, bem como iniciativas de qualificação profissional para PcD, pois o problema já começa lá atrás, na falta de acesso à educação... Aí entra também o problema da escola, que muitas vezes não está preparada ou se recusa a incluir o aluno por causa da deficiência, eu mesmo já tive minha entrada em escolas negada quando criança, e cheguei a ser coagido a sair de uma escola particular por ser vítima de bullying devido à surdez...
Também não adianta contratar PcD e não realizar as adaptações mínimas para a acessibilidade. Muitas empresas procuram escolher só as deficiências que "não dão trabalho", como deficiência auditiva moderada, e isto não é inclusão. Exceto em alguns casos muito específicos (profissionais de segurança, por exemplo), as empresas devem tentar encaixar qualquer tipo de deficiência, se houver um profissional com formação e perfil adequados á vaga.
É importante salientar que não basta apenas empregar pessoas com deficiência para "cumprir cotas" e deixar o profissional sem nenhuma função na empresa. Infelizmente esta prática é comum, pois muitos gestores desconhecem que pessoas com deficiência também são capazes de trabalhar em suas áreas de formação, ainda que possam necessitar de adaptações para ter acessibilidade no ambiente de trabalho. Já conheci um excelente repórter com deficiência visual (baixa visão) que conseguia produzir melhor do que muitos colegas sem deficiência e precisava apenas de um computador com amplificação das letras. Também já vi, por outro lado (não vou citar nomes de empresas ou pessoas), situações em que um empregado com deficiência foi impedido de trabalhar em sua área por um chefe que não conseguia perceber que a deficiência não atrapalhava sua produtividade. O assédio moral relacionado à deficiência também é um problema grave que precisa de mecanismos específicos para ser combatido.
Barcelona
Você concorda que a mídia está vivendo uma grande crise, um verdadeiro caos e na maioria das vezes não é confiável, não apura os fatos? E a que você deve essa crise? 
Não entendi bem a pergunta. Acho exagerado dizer que é "um verdadeiro caos". Há crise da mídia em vários sentidos. O que eu vejo agora é um momento de crise no modelo de negócios do jornalismo, com o surgimento de novas tecnologias que derrubam aquele modelo de jornalismo tradicional do jornal impresso, que muita gente compra na banca ou assina para receber em casa, e que é um jornalismo bastante sustentado pela publicidade nos anúncios pagos. Novos modelos estão sendo testados na internet, mas as pessoas não estão mais dispostas a pagar caro pela informação e os anúncios também não têm a mesma rentabilidade dos que eram veiculados no jornal impresso. Isto no longo prazo altera a própria profissão de jornalista como a conhecemos hoje, do profissional geralmente formado em jornalismo e que se dedica em tempo integral ao trabalho em jornais. A própria existência do jornalismo como profissão, do jornal como indústria, é decorrência da rentabilidade do jornalismo, resultado de um processo que veio do século XIX e começo do XX. Agora no início do XXI vemos uma mudança radical na profissão, mas em outra direção.
Quanto a dizer que "a mídia não é confiável, não apura os fatos", bem, é preciso lembrar que existe muita diversidade de mídias, entre jornal impresso, televisão, rádio, internet, cada veículo tem sua posição política, sua linha editorial, suas normas de apuração e conduta, alguns são mais rigorosos do que outros. Porém, uma consequência da crise no modelo de negócios que se observa no jornalismo atual é que muitos veículos estão investindo demais na quantidade e na rapidez da publicação das notícias, muitas vezes apelando ao sensacionalismo para garantir mais cliques, e isto afeta a qualidade das notícias. Com a queda na rentabilidade dos jornais, é preciso produzir mais notícia com menos jornalistas, então trabalham todos com cada vez menos tempo e mais pressão. Há também o problema das fórmulas e soluções prontas, como a ideia (nem sempre verdadeira) de que em internet só se deve publicar textos curtos, por exemplo. Então o que vemos hoje é um jornalismo muito apressado, muito preso a fórmulas prontas de texto e apuração, e que por isto tem muita dificuldade de aprofundar questões e derrubar clichês.


Você concorda que a internet é mais inclusiva do que a mídia impressa (jornais, revistas) e a mídia eletrônica (televisão e rádio)? 
A internet, pelas suas características como mídia, é mais inclusiva porque permite que quase qualquer pessoa possa publicar e ser vista, sem a necessidade de começar com um grande capital ou contar com o apoio de contatos influentes. Porém, há limites para essa inclusão, devido aos mecanismos que fazem com que certos veículos tenham mais visibilidade na internet e redes sociais do que outros. Acho que os blogs vêm cumprindo um papel muito relevante na difusão de informações sobre inclusão, acessibilidade e direitos da pessoa com deficiência.


Como a mídia vem retratando e veiculando a imagem das pessoas com deficiência ? Até que ponto a mídia brasileira está cumprindo o seu papel de informar e conscientizar a população brasileira, quando o assunto é a inclusão das pessoas com deficiência? 
Embora a situação tenha melhorado um pouco nos últimos anos, ainda persistem os dois principais estereótipos sobre a pessoa com deficiência: o do coitadinho, que precisa de ajuda, e o do super-herói, que “supera” a sua deficiência. Falar de casos de sucesso de pessoas com deficiência como "superação", o que reproduz um preconceito, pois pressupõe que é impossível ter sucesso sendo PcD. Por exemplo, eu não "superei" a surdez para me formar em jornalismo e trabalhar como repórter. Continuo tão surdo como antes. A menos que haja algum tratamento médico bem sucedido ou um milagre, ninguém "supera" uma deficiência física. 
Além disto, note-se que, por exemplo, se uma PcD é artista (músico, pintor), o simples fato de produzir uma obra artística já é considerado por si só um grande feito. Um pintor com deficiência não é julgado artisticamente, mas apresentado como milagre porque pinta apesar de ter uma deficiência... A inclusão só será completa quando o foco for a pessoa e não a deficiência!
Da mesma forma, termos imprecisos, preconceituosos ou pejorativos como "deficiente", "incapaz", ainda são frequentes. Por outro lado, há avanços, com a difusão maior de informações sobre inclusão, uso cada vez maior de termos mais corretos como "pessoa com deficiência". Aliás, a frequência com que o temas ligados à deficiência, como acessibilidade, entram em pauta, cresce e isto é um sinal de que as PcD já não são invisíveis como antes. 
Gostaria de destacar o trabalho importante que está sendo feito por sites e blogs voltados para a inclusão, como o Rede Saci, da USP, ou o blog Assim como você, do Jairo Marques, da Folha de S.Paulo. No caso da surdez, temos a Lak Lobato, do Desculpe Não Ouvi, a Paula Pfeifer, do Crônicas da Surdez, a Sônia Ramires, do SULP (Surdos Usuários da Língua Portuguesa), entre outros. A blogosfera tem sido muito importante na difusão de informações sobre deficiência e combate aos preconceitos.
  
Em sua opinião, quais são os erros da mídia brasileira ao abordar o tema da inclusão? Como eles podem ser corrigidos? E que perigos esses erros podem trazer para a sociedade como um todo?
O principal erro é repetir os estereótipos sobre deficiência que circulam pela sociedade, como o do deficiente coitadinho, santo, super-herói ou que se "superou". O estereótipo do super-herói é um sinal de que a expectativa da sociedade com relação às PcD é muito baixa. É como se o simples fato de um deficiente conseguir sair sozinho de casa fosse uma tarefa de Hércules, quando na verdade é apenas uma tarefa simples do cotidiano se houver as condições necessárias de acessibilidade.
Estes erros são perigosos porque perpetuam na sociedade a imagem de que a pessoa com deficiência não é capaz de ter autonomia. Na verdade, pessoas com deficiência também tem potencial para trabalhar, podem ter bom ou mau caráter, podem ser "cidadãos de bem" ou criminosos, têm uma vida sexual, têm suas limitações. É por causa da imagem do "coitadinho" que as escolas veem o aluno com deficiência como um bicho-de-sete-cabeças que deve ser evitado a todo custo, e as empresas o veem como um profissional incapaz que só deve ser contratado para cumprir cota.
Por exemplo, quanto mais se reproduz o estereótipo de que todo surdo usa língua de sinais, mais os surdos oralizados são prejudicados, porque quem for adaptar um local ou evento para surdos vai se preocupar só com os usuários de sinais.
  

Você acredita que a Legislação brasileira que protege as pessoas com deficiência e estabelece a inclusão social virá a ter algum efeito substancial? O que você considera eficaz para o Brasil melhorar em termos de políticas públicas para as pessoas com deficiência? 
Já temos alguns avanços consideráveis em termos de legislação e políticas públicas, como a Lei de Cotas e alguns benefícios para PcD, como a possibilidade de adquirir gratuitamente aparelhos auditivos pelo SUS. Porém, ainda há muito o que se fazer para avançar. Frequentemente as políticas públicas são pautadas pelo estereótipo do coitadinho que precisa de ajuda e não de medidas que proporcionem maior autonomia. Claro que há auxílios, bolsas e isenções que são importantes, como a isenção de imposto para carros adaptados, que é útil devido ao alto valor que estes carros adquirem no mercado, mas, por outro lado, há muitos benefícios que são mais plataforma para deputado “assistencialista” ganhar evidência. A Lei de Cotas, mesmo tímida, é importantíssima. Precisamos de uma legislação mais ousada que procure garantir acessibilidade e autonomia para as PcD, mas a lei sozinha é inútil se não tivermos políticas públicas para quebrar o ciclo de exclusão da PcD, que começa na dificuldade de acesso à educação e aos itens mais básicos, como próteses e acompanhamentos (médicos, fisioterápicos, fonoaudiológicos etc.), levando à dificuldade de ter uma vida independente, com um emprego digno.
Acho importante aumentar o debate em torno da inclusão para todos os tipos de deficiência e quebrar alguns estereótipos, como a associação automática que se faz entre surdos e língua de sinais. Os surdos oralizados, por exemplo, são quase sempre ignorados quando se pensa em políticas públicas para a inclusão. Estamos tendo nosso acesso à cultura cerceado por cinemas e redes de televisão que deixam de exibir filmes e programas legendados para passar somente dublados, que para nós são impossíveis de acompanhar.

Que mensagem você deixa para os leitores do Blog De Papo com Claudinha? 
A mensagem que eu queria deixar é que não podemos deixar de acreditar no nosso potencial. Muitas vezes a pessoa com deficiência deixa de aproveitar oportunidades que tem porque não acredita que é capaz, ou a família subestima a sua capacidade, ou não conhece as oportunidades que estão à disposição. Precisamos ter consciência de que existe sim o preconceito e que nós, que temos alguma deficiência ou temos algum parente ou amigo PcD, temos o dever de tentar forçar essas barreiras até quebrar, de dizer “sim, eu posso” – sim, mesmo tendo uma deficiência auditiva, eu posso ter uma vida independente, morar sozinho, viajar desacompanhado, posso ter uma profissão e trabalhar na minha área de formação, mesmo que seja “impossível” como o jornalismo.
E aí, gente, gostaram do José Petrola? E vocês  conhecem alguma pessoa com deficiência auditiva que também tenha uma história legal? Então não deixe de contá-la para mim, contá-la para nós… enviando através do e-mail claudiacma7@gmail.com


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