sábado, 9 de abril de 2016

Daniel Silva fala sobre o movimento das Pessoas com Deficiência, a universidade e a política brasileira no contexto atual



Esses dias o Daniel Silva, criador do grupo “E o Aleijado sou Eu?” postou o seguinte comentário lá no facebook: “Fico pasmo com a inércia dos movimentos das pessoas com deficiência no estado do RN. Parece até que minto quando bato na tecla que temos o maior percentual proporcional em defs no Brasil, pois num momento como o que estamos vivendo não os vejo mobilizar, salvo, meia dúzia de gatos pingados, que vão as ruas e que provocam discussão no assunto. Então como podemos cobrar algo? Como queremos mais direitos e garantias se nosso movimento não se organiza? Independente de contra ou a favor deste ou daquele, deveríamos estar nas ruas, participar dos debates, nos articular e parar com essa de ser toda hora representado por outros.

Não é tempo de nos reunirmos apenas para encontros gracinhas, o tempo é de luta, pois enquanto estamos no zap, ou comendo aquele lanche em grupo, nossas cadeiras estão atrasadas, não existe a entrega de sondas, fraldas e outros para quem precisa. Não podemos ficar parados mas meia dúzia de andorinhas não faz verão.”


Curiosos para saberem mais sobre o Daniel e seu grupo no facebook?  Como ele vê o movimento das pessoas com deficiência? O que ele pensa dos políticos que se dizem representantes das pessoas com deficiência? Essas e outras perguntas fiz a Daniel.
Quem é Daniel Silva?  

Um jovem de 33 anos, natural de São Paulo, residente no RN por opção e paixão a mais de uma década, deficiente físico, estudante de Ciências Sociais em Universidade Publica Federal, Militante político, com atuação voltada na causa das pessoas com deficiência, bailarino, ator, enfim alguém que não abre mão de viver e lutar para que cada dia seja melhor que o outro.  
Me descreva um pouco a sua deficiência.  

Minha deficiência é uma má formação congênita denominada Mielomeningocele que é resumidamente: Um defeito congênito da coluna e medula espinhal resultante do fechamento incompleto durante a 4a semana de gestação, e também a hidrocefalia que é o acúmulo excessivo de líquido cefalorraquidiano dentro do crânio, que leva ao inchaço cerebral. Essas patologias, tiveram como efeito a não sensibilidade de membros inferiores, bem como o mal funcionamento da bexiga e intestino.  
O que te inspirou a fazer Sociologia?  
Sempre gostei de leituras, tentar entender os conceitos de nossa sociedade, e como ela se organiza de forma mais ampla, não me contentava com simples explicações nem tampouco com aquilo que a mídia me dava como acesso, e também por que desde cedo procurei ser atuante político, para buscar melhorias para a minha condição de pessoa com deficiência, e entendi que este curso iria então contribuir para que eu fundamentasse ainda mais a minha luta.  
Como você enxerga a Universidade hoje e como você é visto por ela?  

Posso te dizer que tive sorte, pois ingressei na Universidade Federal (UFRN) numa época de crescimento, onde existia incentivo para que de fato tenhamos um ambiente inclusivo, com políticas de incentivo ao ingresso, falo isso em relação a ter uma universidade cada vez mais diversificada e não apenas com uma classe social dominante, me arrepia ver nos corredores, pessoas de todas as classes, trabalhadores, mãe e pais de família, negros e um aumento significativo de pessoas com deficiência.   Hoje percebo que cada vez menos olhares de desaprovação, por não ser de família rica, por ter estudado em escola pública e por ser pessoa com deficiência, embora ainda se de um longo caminho até que tenhamos 100% um espaço universitário para todos, com muita luta estamos no caminho.  
Você é o criador de um grupo no Facebook, chamado “E o Aleijado sou Eu?” Por que esse nome e qual seu objetivo?   
Tenho consciência que a minha condição, em pleno século XXI choca, gera pena e desconfiança de nossas capacidades, por parte de muitos, as pessoas querem nos tratar como coitados, como indivíduos inferiores, fragilizados, com cuidados excessivos e tantas vezes nos chegam sem saber como se referir a nossa deficiência, até mesmo pessoas com deficiência ou que militam na causa tem essas cerimonias e criam nomenclaturas horríveis como “Herói” ou Especial sem deixar de falar na celeuma gerada por parte de quem decide as leis sobre qual o atual termo correto como devem falar sem magoar a nós e tal,  como se precisássemos de dizeres compensatórias para nos levantar a dignidade. Uma outra leitura sobre a escolha, é jogar para a sociedade que o deficiente (Aleijado), não sou apenas eu, pois se as cidades fossem pensadas para todos, bem adaptadas não sentiríamos tanto a diferença, mas o cumprimento dessas coisas básicas e o pensamento dos nossos gestores ainda é muito ineficiente. 

Como você vê o Movimento das Pessoas com Deficiência? Num momento tão crucial de luta pela democracia, você foi às ruas de Natal, qual a sensação de fazer parte desse momento da história do Brasil?   
O que vejo pelo menos aqui no RN, é um movimento fragilizado e entregue nas mãos de poucos representantes que se perpetuam anos após ano, numa pseudo representação, que não agrega, que não chama os deficientes a tomar parte, pois eles preferem que essas pessoas fiquem em casa como sempre fizeram e que saiam apenas quando necessário, para bater palmas para eles, sinto pois vejo que temos tantas pessoas com deficiência que poderiam ter atuações de muita força na causa, poderíamos e deveríamos ser referência, como o estado com mais participação das pessoas com deficiência nos diversos setores da sociedade mas não somos, não somos por que muitos de nós não tem oportunidade, não tem informações e formação necessárias para isso, falta estimulo, e órgãos que trabalham nesse segmento mais comprometidos com a causa do todo e não apenas com os objetivos deles.  Tantos anos que tenho no RN, conto nos dedos os deficientes com atuação na causa, e muitos deles apenas para abrilhantar e servir de número nos encontros. Claro que temos pessoas que não se submetem a isso, são minoria, mas tenho certeza que poderíamos e deveríamos ser muito mais, nosso povo tem um potencial incrível, falta apenas e nada mais que oportunidade.   
Quanto ao momento que vivemos minha posição não poderia ser diferente, o que acontece no País interfere na vida de cada um, e vejo como uma obrigação sair as ruas e em todos os espaços defender a nossa democracia contra a tentativa vil de golpe sendo deficiente ou não, seria leviano de minha parte não reconhecer os avanços que tivemos nos últimos anos, nunca se discutiu tanto em nível nacional políticas públicas para pessoas com deficiência, nunca se discutiu e se oportunizou tanto, que pessoas de classes mais baixas tivessem acesso a boa educação, a formação de qualidade, e a possibilidade real de buscar uma vida melhor para além do sonho distante, da utopia. Eu mesmo sou um beneficiado direto desses avanços, afinal um pobre, que estudou em escola pública, deficiente físico, e que hoje está a um passo de concluir um curso superior em Universidade Federal era um sonho muito distante a algumas décadas, só que agora quero mais, quero avançar, quero esse crescimento não apenas para mim mas para todos, e para isso se faz necessário defender a democracia e gritar contra um possível retrocesso. 


O que você pensa dos políticos que se dizem representantes das Pessoas com Deficiência como, por exemplo, Mara Gabrilli, Romário e Paulo Paim?   

Penso que essas pessoas quando bem-intencionadas, desenvolvem um papel muito importante na busca de uma sociedade mais igualitária, fico feliz de ver que temos nomes se destacando na causa em esfera política, de onde sai todas as leis e garantias de nossos direitos. O que me preocupa vez por outra é a forma como alguns desses parlamentares citados tem agido em poder de suas prerrogativas. Cito o caso da Deputada Federal (PSDB-SP)Mara Gabrilli, que lutou com unhas e dentes para que a Ginasta Laís Souza tivesse um benefício vitalício de R$ 4.390,24 Reais aprovado, alegando que ela teria prestado um serviço por anos a nação como atleta, e que um salário mínimo normal não seria suficiente para suas necessidades enquanto pessoa com deficiência, e para as outras 45 Milhões de pessoas com deficiência que também prestaram serviço a nação seja com trabalho, ou com pagamento de impostos ou pela luta de seus pais pela sua sobrevida, essas pessoas não mereciam então ter o mesmo tratamento e o mesmo afinco político para que seus direitos fossem garantidos de fato? Ou será que isso só seria interessante para a moça por que era atleta e que traria mídia para a parlamentar? Penso que legislar para obter mídia e não ao bem comum não é o papel de nenhum político que nos representa.   
E como os políticos do RN enxergam / tratam as Pessoas com Deficiência?   
Ainda nos veem de modo muito assistencialista, não tivemos ainda uma política pública efetiva voltada para nós em nenhumas das esferas de nosso estado ou da cidade de Natal onde moro, é enorme o descaso de nosso prefeito em relação as pessoas com deficiência, nada funciona e nada facilita em nossa vida, os ônibus adaptados são minoria, e na maioria das vezes estão quebrados ou seus funcionários não sabem operar o sistema, a via pública é um convite para que o deficiente não saia de casa devido à falta de padronização e cuidado com a via pública, nossos belíssimos pontos turísticos são inacessíveis e tudo isso se dá pela falta de gestão interessada e comprometida na causa.  
O programa Viver sem limites do Governo Federal uma potente ferramenta na garantia dos nossos direitos ainda atua de forma quase inexistente no estado, falta empenho, falta comprometimentofalta informação, falta que os nossos representantes abracem essa causa de fato, entendendo que é um direito constituído e não algo meramente assistencialista, conto nos dedos os que se comprometem. 
 Enfim não nos veem, somos invisíveis em pleno século XXI para os governantes de nosso belo estado e da cidade de Natal.  


O que você espera para o futuro de nosso país?  
Primeiramente espero que a nossa democracia seja respeitada, que sejam garantidas as condições para que o governo atual eleito pela maioria do povo, possa de fato governar, sem que haja interferência com objetivos escusos de um grupo que esteve tantos anos no poder e que não foi capaz de governar de modo a fazer o País avançar, também espero que os cidadãos e cidadãs cada vez mais se sintam no direito de participar da política do país, que enxerguem sua força, mas que também não alimentem mais o discurso da mídia e de partidos que nunca quiseram o bem comum. 
Penso que poderemos e deveremos sair desse momento difícil e continuar a crescer, mas para isso é necessário que o povo atue de forma mais incisiva e que esteja do lado acima de tudo da democracia. Nos últimos anos passei a acreditar que era possível sonhar com um país mais justo, senti o gosto disso, alcancei com meus olhos essas transformações, espero que num futuro muito próximo voltemos a crescer e a avançar, para o bem de todos, pois ainda há muito o que ser feito. 
 Que mensagem você deixa para os leitores desse blog?  
A mensagem é para que tenhamos consciência dia a dia que as coisas só vão mudar quando percebemos todos, que para avançar é necessário que tenhamos formação, informação e muita, mas muita coragem para assumir a parte que nos cabe na sociedade, e isso eu falo diretamente às pessoas com deficiência: Somos muitos, somos fortes, e não podemos mais alimentar a imagem de deficientes fragilizados, temos que arregaçar as mangas e sair a luta se quisermos que os nossos direitos sejam garantidos, cobremos mais do nossos representantes,  e que também percamos o medo e vamos atrás de ocupar efetivamente os espaços de representação, ninguém melhor que nós para sabermos as nossas reais necessidade sem que se faça necessário a figura do representante por conveniência, verdadeiros atravessadores, que anos após anos nos cobram muito caro para serem a nossa voz na luta, mas esquecem que também temos vozes, que também queremos sentir o sabor de lutar por nossa causa, e que somos os reais interessados nesses avanços, não da forma que eles julgam conveniente mas da forma que realmente nos fará avançar sem retrocessos. 
E gostaria de parabenizar a responsável por esse Blog por sua atuação na causa das pessoas com deficiência, e por sua vontade e compromisso de estar levando a cada semana um leque de informações úteis para todos nós. São espaços como estes, que nos dão mais forças para continuar a acreditar que nada está perdido e que o nosso hoje pode e tem que ser melhor. 

Obrigada, Daniel pela oportunidade de poder falar um pouco da sua vida, por refletir sobre o poder e a participação das pessoas com deficiência na política. E  se vocês quiserem trocar uma ideia com o Daniel, basta acessar o grupo E o Aleijado Sou Eu?, segui-lo no Twitter ou enviar um e-mail para danmsilva.gd@hotmail.com. 
  
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