segunda-feira, 30 de maio de 2016

A corrupção e o banheiro adaptado


Gente, todos os dias os jornais e a TV apresentam notícias da Lava Jato, de desvios de dinheiro da merenda escolar, etc. E todas essas denúncias geram uma revolta tremenda em toda a população, inclusive em mim.



Entretanto, o que é mais espantoso é que, apesar dessa compreensão generalizada a respeito da corrupção, o debate sobre os motivos e as possíveis soluções ainda são poucos e deficientes. Daí vem algumas perguntas como:


1) O que é corrupção? 

2) Será que ela é uma exclusividade dos deputados, senadores, vereadores, prefeitos etc?

3) Será que também não somos corruptos?

4) E como as pessoas com deficiência (con)vivem com a corrupção? 

 

Maiko Rafael Spiess, nos informa que segundo “(...) a ONG Transparência Internacional, a corrupção pode ser definida como ‘o abuso de poder político para fins privados’ Essa é a definição mais aceita e conhecida do termo e pode ser aplicada à maior parte das notícias sobre a corrupção que vemos diariamente”. Ou seja, as práticas de corrupção são formas de obter vantagens (financeiras ou não), apesar das leis. E falando em regras e/ou leis como você reage diante de um proibido estacionar na vaga destinada às pessoas com deficiência? Diante de um é proibido atravessar a rua fora da faixa ou com o semáforo fechado para pedestres? Ou é proibido fumar no restaurante, no barzinho, etc ?
Roberto DaMatta em sua obra O que faz o brasil; Brasil?, nos lembra que ingleses, franceses e norte-americanos obedecem às leis, pois nesses países “(...) a lei é um instrumento que faz a sociedade funcionar bem(...)”  Já  no nosso país “(...) a lei sempre significa o ‘não pode’(...) que submete o cidadão ao Estado de forma geral e constante.”
E entre o “pode” e o “não pode” o brasileiro escolheu juntar o “pode” com o “não pode” e dessa junção surgiu o “jeitinho brasileiro,” que segundo Roberto DaMatta “(...)  é um modo simpático, desesperado ou humano de relacionar o impessoal com o pessoal; nos casos - ou no caso- de permitir juntar um problema pessoal (...)  com um problema impessoal. Em geral, o jeito é um modo pacífico e até mesmo legítimo de resolver tais problemas, provocando essa junção inteiramente casuística da lei com a pessoa que a está utilizando.”
Roberto Da Matta ainda nos lembra que o “jeitinho brasileiro” tem toda uma malevolência, uma ginga, uma simpatia. Características do malandro e que todos os brasileiros possuem  a possibilidade  de agir como tal em todos os lugares. Nesse sentido, o malandro “é um papel social que está a nossa disposição  para ser vivido no momento em que achamos que a lei pode ser esquecida ou até mesmo burlada com certa classe ou jeito.”
Daí quando eu fui a Brasília encontrei muitas pessoas malandras nos banheiros adaptados passando a perna nas pessoas com deficiência e cometendo um ato de corrupção. O meu vôo fez uma escala no Rio de Janeiro e ao descer lá precisei ir ao banheiro, detalhe é que ao chegar o mesmo estava ocupado. 
E eu fiquei ali rezando para minha bexiga suportar, para o avião não sair sem mim e que saísse de dentro daquele banheiro uma outra mulher com deficiência.Deus apenas ouviu minhas preces em relação a bexiga e ao avião pois,do banheiro acessível saiu uma mulher, sem nenhuma deficiência aparente, arrastando um bocado de malas e ao me encontrar na porta abriu um sorriso amarelado. Todavia, minha bexiga não permitiu que eu explicasse a ela que aquele banheiro é reservado às pessoas com deficiência.

Já em Brasília, durante a Conferência de Políticas Públicas para as Mulheres, após uma manhã de trabalhos, precisei ir ao banheiro e para minha surpresa a mulherada sem deficiência estava usando o banheiro adaptado. Aproveitei para explicar as mesmas as seguintes questões:

1)Que aquele banheiro é nossa única opção e que ele é mais espaçoso pois, a cadeira para as pessoas com deficiência  tem que caber lá dentro. Já para as pessoas cegas que precisam da ajuda do cão-guia também necessitam de um espaço maior porque não cabe o cachorro e seu dono naqueles cubículos.


2) Já as barras de apoio servem para os cadeirantes fazerem a transferência da cadeira para o vaso sanitário e se manterem firmes.
3) Também é muito ruim sentar num vaso sanitário todo imundo por outras pessoas sem deficiência e sem educação. Imagine você ter que utilizar um vaso, no qual outras mulheres subiram nele e deixaram as marcas de seus sapatos de grifes lá. E a situação complica para as meninas que fazem cateterismo e que  ficam mais propensas a contrair infecções urinárias. Já num banheiro com menos uso, o risco de contaminação é bem menor.  Vejam,  no vídeo abaixo, uma forma das mulheres fazerem o cateterismo vesical.

Conversei com outras mulheres com deficiência sobre o assunto e essa questão foi levada a Coordenação do evento. Essa última pediu a Plenária que as mulheres sem deficiência tivessem bom senso e não usassem o banheiro adaptado. Todavia, para meu espanto no outro dia quando fui entrando no banheiro vi uma mulher sem deficiência entrando no banheiro reservado para as mulheres com deficiência.
Aí falei para as demais que estavam na fila que era vergonhoso uma pessoa está numa Conferência, que é um espaço democrático que surgiu com o objetivo de discutir, trocar conhecimentos e elaborar propostas, entre a sociedade civil e representantes do governo, para demonstrar prioridades aos nossos gestores públicos quanto ao desempenho de Políticas Públicas para os próximos anos.E ao mesmo tempo a pessoa está ali desrespeitando o direito de uma outra pessoa.
A mulher então saiu fingindo que não tinha ouvido a conversa e eu entrei no banheiro. E para minha surpresa assim que eu sai outra mulher entrou, no banheiro, alegando que se estava desocupado  ela poderia usá-lo. Depois de tudo isso fiquei me perguntando, qual a diferença entre as atitudes dessas pessoas que usaram o banheiro adaptado e os políticos envolvidos em escândalos de corrupção?
A diferença é que existe uma corrupção aceitável e uma corrupção não aceitável socialmente. Ou seja, o povo brasileiro reclama e censura o uso do “jeitinho brasileiro” por parte de políticos e empresários, mas eles não dispensam seu próprio “jeitinho” de fazer as coisas.

E aí gostou desse post? Então compartilhe, deixe seu comentário e não esqueçam de  me acompanhar no Instagran e Facebook.



DAMATTA, Roberto.O que faz o brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1986

Imagens do Google*

Nenhum comentário:

Postar um comentário