quarta-feira, 22 de junho de 2016

Caicó/Seridó, região, de Muié macho, sim sinhô?


Minha ex- professora Vanuza Souza Silva, em uma entrevista, falou que “(...)ser mulher no Nordeste exige uma virilidade e a música de Luís Gonzaga é muito responsável por isso.” Daí a professora nos lembrar daquele famoso refrão ‘ Paraíba masculina/Muié macho, sim sinhô’”. E ela ainda destaca, e eu assino embaixo,  “(...) que a mulher do Nordeste não é necessariamente viril, existem as mulheres viris como em qualquer outra região do país.” Daí na Cerimônia de entrega do 6º Prêmio Igualdade de Gênero Vanuza Souza Silva, no auditório do MEC,  ter dito que a cultura nordestina possui códigos masculinizantes que violentam as práticas das mulheres  no nosso dia a dia.
E como Caicó é uma cidade localizada no sertão nordestino, resolvi ouvir um grupo de mulheres, denominado Movimento de Mulheres do Seridó (MMS), para saber como é ser mulher em Caicó/Seridó no século XXI e que tipo(s) de violência(s) são sofridas pelas mulheres em Caicó/Seridó. Para isso, “ouvimos”  a historiadora  Lêda Mayara e Lúcia de Fátima Araújo, presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres e professora da rede estadual de ensino.  Então, não percam a entrevista abaixo com essas duas mulheres de gerações diferentes.

Como é ser mulher em Caicó/Seridó no século XXI?
Lúcia:Irei responder como ser mulher e ser mulher feminista,que é o meu caso. Ser mulher em Caicó e região do Seridó no século XXI  é viver num lugar parado no tempo, um tempo que nos remete a séculos longínquos onde mulher era pra o lar,que poucas conseguiam alçar voos maiores,como por exemplo, fazer faculdade e arranjar uma profissão;aqui ainda se ver muito famílias tratarem os meninos com direito a todo tipo de liberdade e as menina não. Ser mulher feminista é   ter conseguido, além de estudos e trabalho, tomar consciência de como funciona o sistema patriarcal,ainda tão influente na nossa região, e tentar mudar essa realidade para que outras mulheres possam também se politizar acerca dessa realidade tão difícil de mudar; ser feminista aqui é também precisar está preparada para sofrer todo tipo de resistência vinda de pessoas não dadas às mudanças.       
Lêda:Ser mulher em Caicó é como continuar vivendo em um período arcaico transvestido de modernidade. Caicó é uma cidade que cresceu, mas não se desenvolveu, corremos um risco bem maior de ser estuprada, por exemplo, porém, se formos, vão procurar em nossas roupas e comportamentos uma "motivação " para isso. Infelizmente é muito complicado.       
Quando e como surgiu o Movimento de Mulheres do Seridó? E por que o mesmo foi criado?
Lúcia:O Movimento de Mulheres do Seridó nasceu em fevereiro de 2015, da necessidade de se denunciar a situação de descaso porque passava a saúde materno/infantil na nossa região envolvendo o Hospital do Seridó,que havia se transformado  num espaço que apenas atendia a interesses eleitoreiros de um grupo político da cidade de Caicó e região,negligenciando o atendimento necessário às mulheres. Foram muitos os casos de denúncias sobre violência obstétrica e óbitos de gestantes e fetos que ocorreram ao longo de décadas. Então, um grupo de mulheres criou o movimento para enfrentar essa situação e abraçar também outras causas sobre os direitos das mulheres.
Por que ainda hoje existe uma visão errada sobre o(s) feminismo(s)  em Caicó/Seridó?
Lúcia:Essa visão errada sobre o feminismo é muito forte no interior, porém não se dá apenas na nossa cidade e região do Seridó,acontece em todo país pelo fato da nossa cultura ainda viver sob influência do patriarcado, que ver o homem como superior à mulher. As pessoas por não conhecerem os princípios do feminismo tendem a confundi-lo com o machismo, (talvez  por ter o mesmo sufixo ismo)pensam que é pra mulher se tornar superior ao homem. O feminismo luta por direitos iguais,enquanto que o machismo defende a supremacia do homem. O Movimento de Mulheres do Seridó se preocupa também em abordar sempre essa questão em todas as suas atividades por entender que enquanto houver essa desigualdade entre homens e mulheres,haverá  violência de gênero, violência essa que abrange a própria questão da maternidade.
Lêda:A visão errada sobre o feminismo não é apenas no seridó, mas no mundo todo. Aqui na nossa região, devido a grande influência da religião católica e do patriarcado o feminismo é visto como "o pecado de Eva", uma inversão de valores, o que torna a luta ainda mais difícil.

Por que as mulheres ainda são minoria na política, no campo acadêmico, na Câmara dos Deputados, no Senado, na presidência de empresas, etc?
Lúcia:Nós mulheres ainda somos minorias nos espaços de poder porque a sociedade não nos ver como seres políticos,capazes de tomar decisões importantes no âmbito público. Ao longo da história, os papéis que nos foram designados foram no âmbito privado,como cuidadoras do lar,dos filhos,do marido,da família emfim,da sociedade inteira. Para mudar essa realidade,é importante que haja muita discussão e força dos movimentos de mulheres para transformar essa cultura que valoriza apenas o homem, subestimando a capacidade das mulheres como seres inteligentes,que se forem estimuladas também podem desempenhar funções  públicas importantes tanto na política, em empresas e em todos os lugares.
Lêda:Infelizmente, apesar do discurso igualitário, a caminhada ainda é bem mais difícil para as mulheres. A maioria de nós tem jornada dupla ou tripla de trabalho, não dá pra ter dedicação exclusiva à carreira, como boa parte dos homens fazem. Além disso, ainda existe uma grande camada de preconceito a nossa volta, o deputado Bolsonaro, por exemplo, diz que deveríamos ganhar menos por ser mulheres e engravidar, o que é uma aberração. Mulheres, mesmo que exercendo a mesma função que os homens, tem remunerações inferiores. Na política é ainda mais complicado, a igualdade fica no discurso, as campanhas femininas não são valorizadas, nossa voz é calada pelos "feministos", homens que tomam nossa voz e protagonismo, se dizendo falar pela gente, afim de ganhar biscoito, como se diz no popular.
Qual a maior evidência de que o feminismo é necessário numa cidade como Caicó?
Lúcia:A maior evidência de que o feminismo é tão importante aqui é a existência do conservadorismo, o forte poder de setores religiosos que influencia todos os meios de comunicação que, assim como as demais instituições, impedem que haja discussões de gênero.
Lêda: As evidências são inúmeras, milhares de mulheres sofrem violência doméstica todos os dias, sem falar na violência psicológica, quando são impedidas de trabalhar e estudar, e dá simbólica de gênero, com as piadas que escutamos todos os dias e por vezes não nos damos conta.


Quais os maiores avanços e dificuldades vividas pelo Movimento das Mulheres do Seridó?
Lúcia:Nós tivemos um grande avanço que se deu por pressão do nosso movimento ( logo no primeiro ano de criação) junto à sociedade toda, à Justiça,que foi a Intervenção Judicial no Hospital do Seridó,que vem melhorando o atendimento às mulheres. Outros avanços, tão importantes quanto a Intervenção, têm sido no âmbito político; das lutas contra o machismo,o racismo,a LGBTfobia,apoio às pessoas com deficiência, em favor da democracia,contra o golpe,no apoio ao Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres,ao MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais. Na criação do GEFJM - Grupo de Estudos Feministas Júlia Medeiros,que tem como objetivo oferecer fundamentação feminista às integrantes do movimento,e muitas o utras ações. As dificuldades encontradas foram a oposição de pessoas ligadas ao grupo político que se beneficiava ilegalmente do referido Hospital e até de pessoas de quem a gente menos esperava,ligadas ao Conselho Municipal de Saúde e de outros setores da sociedade seridoense.
Lêda: Os avanços são fazer com que as mulheres do Seridó e a população no geral se insira na luta por uma sociedade melhor. O MMS foi pioneiro nessa luta na nossa região, encorajando vários outros movimentos e se fazendo presente em todas as pautas necessárias.  As dificuldades estão em unir pessoas com pensamentos tão distintos para lutar por pautas em comum e atingir a maior parte da população.

A implantação do Hospital da Mulher do Seridó é vista pelo Movimento de Mulheres do Seridó como uma solução para conter a mortalidade de gestantes e de bebês. Nesse sentido, o que vem sendo feito para que o mesmo se torne real?
Lúcia:Nós sonhamos com um Hospital da Mulher que, além de atender toda a demanda materno/infantil,possa também atender mulheres em todas as fases da sua vida,abrangendo especifidades como deficiência,terceira idade etc. Que haja um consórcio com todos os municípios do Seridó para que todas as mulheres possam ter um atendimento humanizado de acordo com a Constituição brasileira e demais legislações dos direitos humanos. No momento,o Movimento recuou um pouco na luta porque aguarda a decisão do Ministério Público Estadual que é quem vai determinar se o hospital vai passar ao poder público ou volta pra Fundação Carlindo Dantas. Porém,quanto à UTI neonatal,nós continuamos fazendo pressão para que seja instalada logo.
Lêda:A implantação do hospital da mulher do Seridó foi e continua sendo uma das principais pautas do  MMS. As mulheres do Seridó sofrem muita violência obstétrica, muitas morrem ou vêem seus filhos recém nascidos morrerem por negligência. Sem dúvida um hospital da mulher é de suprema importância.

Que mensagem vocês deixam para os leitores desse blog?
Lúcia:Como esse blog certamente é mais lido por pessoas com deficiência,principalmente por mulheres, a mensagem que eu gostaria de deixar é que as mulheres com deficiência procurem se empoderar,lendo textos feministas,participando de movimentos de mulheres (principalmente o nosso rsrs),de fóruns de debates sobre os direitos específicos das pessoas com deficiência para se sentirem encorajadas a lutarem por uma sociedade que respeite as diferenças, sem discriminação,que busque à igualdade de gênero.
Lêda: Eu não tenho outra coisa pra dizer à não ser : sejamos todas feministas, o feminismo é a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, é para todas.
Obrigada, meninas pela oportunidade de poderem nos falar um pouco da importância do MMS para Caicó/Seridó.

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