sábado, 25 de junho de 2016

Os papéis da família, da escola e dos amigos na vida de um aluno com deficiência


Gente, essa segunda-feira(20/06/2016) fui convidada para dar uma palestra na Escola Estadual Antônio Aladim, na cidade de Caicó-RN. O colégio possui três alunos com deficiência que convivem com alunos sem deficiência que muitas vezes excluem e ficam sem paciência com as atitudes, gestos e ações dos colegas que são deficientes.Buscando solucionar a questão, sem culpar alguns alunos e vitimizar outros, a escola optou pelo diálogo  como meio de conscientização e esclarecimento.


Afinal de contas, o preconceito contra os alunos com deficiência ocorre por falta de informação. Daí a escola além de mim também convidou o Coordenador de Educação Inclusiva da 10ª Diretoria Regional de Ensino ( DIRED), que também é uma pessoa com deficiência, e exibiram dois filmes em que personagens com deficiência vivenciavam contextos positivos.
Na minha fala resolvi focar a importância da educação, da família e dos amigos na minha vida. Então, iniciei explicando qual era minha deficiência, as inúmeras viagens com minha mãe em busca de tratamento médico e as idas e vindas às sessões de fisioterapia, com minha prima ou meu pai que me levavam nos braços e muitas vezes a pé.
Depois contei para eles como foi minha infância, as brincadeiras na rua como pular cordas, pular amarelinha, andar no meio do mato, tomar banho nos açudes. Falei para eles da minha primeira escola que funcionava numa casa, depois do Educandário Santa Teresinha e do Centro Educacional Integrado do Seridó, escolas que no final do século XX, apesar de não serem adaptadas e nem obrigadas, por lei, a receberem alunos com deficiência me acolheram de coração.


Nesse tempo ninguém falava em educação inclusiva daí as escolas não possuírem naquele tempo banheiros adaptados, nem rampas com corrimão. Mas, meus colegas com muito carinho e sensibilidade acabavam tornando a escola um ambiente agradável “derrubando”, para mim, todas essas barreiras. Também falei do medo que eu tinha do primeiro dia de aula, medo de chegar lá e não encontrar meus colegas que sabiam tão bem adaptar aquele ambiente para que eu me sentisse igual a eles e elas.   
Também enfatizei que fui uma adolescente como qualquer outra da minha época que aos 15 anos desejava ter 18 anos, aos 18 anos queria ter 25 anos. Hoje aos 34 anos com muitos boletos  para pagar e problemas para resolver gostaria de voltar a ter 15 anos e ter como única preocupação o boletim escolar. Também desejava ir às festas de clube  com os amigos mas, quando falei que isso até hoje nunca foi possível vi nuvens de sinais de interrogação se formando acima das cabeças deles. Daí disse a eles que a acessibilidade passa longe, ainda hoje, dos clubes de Caicó. E daí eu falei que para uma pessoa com deficiência fazer parte daquela muvuca, com pessoas alcoolizadas te cercando por todos os lados é algo perigoso.
Ainda falei dos tempos da universidade, tempos em que vendíamos o almoço para comprarmos a janta. Nesse tempo o Ceres- Campus de Caicó também não era adaptado, um dos auditórios era no primeiro andar e para chegar lá tinha que subir uma escadaria imensa. Então,  eu agarrava firme o cangote de um colega e rezava para ele não ter nenhuma tontura.  E para eu trazer livros da biblioteca também não era fácil pois, eu usava duas muletas canadense, e para  trazer o livro eu tinha que levar minha bolsa que muitas vezes já estava bem pesada com outros livros. Desconfio, hoje, que os inúmeros torcicolos que eu tinha nesse período eram provenientes do peso que eu trazia  pois, eu andava a bolsa atravessada. Então, a bibliotecária Onilda com toda sua sensibilidade e carinho consentiu que meus colegas pudessem pegar os livros para mim.

E por fim, falei  do emprego, das pós-graduações e viagens que me trouxeram mais amigos e mais apoio da família. E ao terminar meu relato uma das professoras pediu para que eles falassem o significado da palavra direito. Já outro professor chamou uma aluna, colocou uma venda nos olhos dela, guiou ela pela sala  e depois pediu para ela relatar o que sentiu. Ela falou  que não era fácil andar sem enxergar e sem a ajuda do professor não conseguiria andar pela sala.
Mas, o que dizer de tudo isso? Inicialmente agradecer aos professores da E. E. Antônio Aladim pela ideia de  levar pessoas com deficiência para conversar abertamente com os alunos; mostrar a eles as inúmeras  barreiras que ainda precisam ser derrubadas; fazer com que eles compreendam que aqueles coleguinhas com paralisia cerebral, ou síndrome de down se estimulados na escola, poderão ter um futuro brilhante, como qualquer aluno sem deficiência; e também revelar que  aquele menino que usa cadeira, ao ser bem recebido no ambiente escolar, como eu fui,  vai adquirir força e ânimo para enfrentar o mundo e suas dificuldades aumentando as possibilidades de projetar um futuro mais independente.
E por último, mas não menos importante, gostaria de agradecer a minha família, aos meus professores e  amigos (da rua, do tempo da escola, da universidade, do trabalho e de tantos outros espaços como o blog), pelo fato de nunca terem desistido de mim, por terem aceitado conviver com alguém um pouco diferente deles . Enfim, vocês demonstraram nessas atitudes serem pessoas pacientes, inteligentes, sensíveis e amorosas.

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