terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lais Sousa, a tocha Olímpica e o discurso do ódio

Oi, meus Amores!Tudo bem?

Hoje vou falar um pouco da Lais Souza, ou melhor, vou falar um pouco do que ela anda falando e fazendo e especialmente do que andam falando sobre ela. Mas, quem é Lais Souza? E por que resolvi falar sobre ela? Bem, para quem não lembra ela era ginasta e sofreu um acidente, em 2014, durante os treinamentos nos Estados Unidos, lesionando a medula e perdendo os movimentos do pescoço para baixo.
Já o motivo de eu estar aqui escrevendo sobre ela é porque recentemente ela conduziu a tocha Olímpica de pé, em São Paulo.Para isso, ela utilizou uma cadeira de rodas que pesa 182,8 kg e foi auxiliada pelo seu cuidador e pelo seu pai e, esse fato, foi noticiado pela mídia e dividiu a opinião de jornalistas e leitores.
Como nos lembra Maria do Rosario Gregolin “[...] as mídias desempenham o papel de mediação entre seus leitores e a realidade. O que os textos da mídia oferecem não é a realidade, mas uma construção que permite ao leitor produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade concreta.”Nesse sentido, como a Lais Sousa e o fato dela ter conduzido a Tocha Olímpica foi representado pela mídia?

Laís Souza conduz tocha de pé e emociona público em SP” foi o título de uma reportagem do site Terra. Já outro texto postado num dos blog que faz parte do Grupo Folha foi intitulado “Ao conduzir tocha artificialmente em pé, Lais Sousa ignora quem vive sentado”.
Na primeira reportagem percebemos que a Lais Sousa foi retratada de forma paternalista e estereotipada passando para o leitor a ideia de que ela é um exemplo de vida, a ser seguido, por superar as dificuldades.Já a segunda reportagem denuncia que por trás dessa atitude de sair em pé, conduzindo a tocha, ela está reproduzindo o pensamento capacitista.Clique aqui para saber o que é capacitismo.
Ou seja, a diferença entre as duas reportagens é que enquanto a primeira reportagem reforça a segunda denuncia o discurso do capacitismo. Entretanto, as duas reportagens estão ligadas a outra questão que é a violência que encontramos nos comentários das reportagens que está relacionado ao fenômeno que o Leandro Karnal denomina “Ódio no Brasil”, que é essa pseudo característica no Brasil de que o brasileiro é um povo pacífico, é um país que não tem guerras e que não entra em guerras. Mas, na verdade é um país extremamente marcado pela violência.

Daí num dos 28 comentários, da reportagem “Laís Souza conduz tocha de pé e emociona público em SP”, percebemos que esse autor no lugar de criticar de forma coerente o texto ou o comportamento da Lais Sousa resolve manifestar uma posição muito pessoal e personalizada da sua opinião. E como resposta a esse primeiro comentário o autor é xingado de “grande otário”.
A partir da análise desses comentários fiquei aqui pensando que o autor do comentário 1, provavelmente jamais falaria essas palavras a própria Lais Sousa.Já o autor do comentário 2 provavelmente diria que não concorda com a opinião do autor 1 mas, dificilmente o chamaria de “grande otário”, em público.Mas, o que leva uma pessoa a fazer comentários agressivos na internet?
Segundo o jornalista Leonardo Sakamato, a internet é uma plataforma de reconstrução da realidade, daí quando você está na solidão de seu smartphone ou computador, diferente de quando você está numa roda de conversas, você não vê a reação física da pessoa que você está ofendendo, nem a reação de outras pessoas que você está fazendo o comentário. E é essa reação que vai te chamar de volta para a realidade e aí você percebe que não agradou.
Assim, na segunda reportagem que gerou 929 comentários no blog, 71 compartilhamentos e 305 curtidas na página do facebook do jornalista é notável que muitos desses comentários vão ao encontro do que Leonardo Sakamoto defende. Daí muitos dos leitores da segunda reportagem que não concordaram com a opinião do jornalista, no lugar de gerar um espaço de discussão com argumentos históricos, filosóficos e sociológicos simplesmente partiram para a agressão fortuita como vemos no comentário abaixo.
A sensação que temos quando vemos esses comentários é que a internet possibilitou um fluxo imenso de informações, encurtou as distâncias e entrelaçou pessoas que não se viam há anos.Mas, ao mesmo tempo a internet possibilita escolher, quem vamos seguir.
No lugar de comprarmos um jornal e lermos opiniões diversas dos vários colunistas,  seguimos aquele cara que fala o que nós gostamos. Isso é positivo pois, ninguém tem mais tempo para sair procurando várias fontes para a mesma notícia.
Mas, isso também é perigoso pois não é só você que escolhe o que quer ver mas, também as redes sociais começam a aprender aquilo que você gosta e te mostrar aquilo que você mais gosta .
Um exemplo, bem simples é se você é uma pessoa que ama chocolate e curti tudo que tem chocolate (fotos, torta, sorvete, bolos de chocolate). O que o facebook, o instagran, o twitter, o youtuber, os sites vão fazer com você é te entupir de chocolate. A razão é simples, as redes sociais querem que você tenha uma sensação prazerosa e passe o maior tempo possível na rede  olhando os anúncios.
E você fica ali curtindo pessoas que tem o mesmo gosto pelo chocolate como você.Não existe nenhuma divergência até que, um certo dia, uma pessoa faz uma torta e substitui o chocolate por morangos e posta lá nas redes sociais que a torta feita com morangos é bem mais gostosa que a feita com chocolate.
A partir daí as discussões se inflamam pois, cada pessoa  passou seu tempo todo curtindo coisas de chocolate e começam a julgar aquela pessoa que fez a torta com morangos de esquisita e de estranha, sem nem experimentar a torta feita com morangos.
Ou seja,cada um está extasiado pela sua própria opinião e ninguém quer mudar, ninguém quer sentar para conversar, aprender, se informar, ninguém quer rever suas próprias opiniões como uma das leitoras comentou.
E isso é muito curioso e perigoso justo agora que temos um acesso amplo as informações estamos nos fechando cada vez  mais. Daí a importância de pensarmos duas vezes antes de sair ofendendo uma pessoa simplesmente pelo fato dela pensar diferente de você sobre um determinado assunto.

E aí, gostou do post?E caso queiram ver, na íntegra, as postagens analisadas aqui é só clicar aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário