terça-feira, 9 de agosto de 2016

Na Semana dos Pais, um papo com pais cadeirantes e de primeira viagem



Gente quando fiz a entrevista Conheça a história do  pai de gêmeos, blogueiro e cadeirante uma das perguntas que fiz ao  Alessandro foi quais os desafios enfrentados por um pai, de gêmeos, cadeirante? E ele respondeu:
“Muitos! Como lesado medular, tenho pouco controle de tronco e preciso fazer um esforço maior para segurá-los, além da dificuldade natural de transferência e “velocidade” para atender às demandas deles. Isto não seria problema se eu não sofresse de dor crônica, é esse meu maior desafio, lidar com ela diariamente para não atrapalhar minha relação com eles. Se conseguir minimizar estas dores, o único desafio será mostrar para eles que a diversidade pode conviver tranquilamente com a felicidade!”
Agora imagine os desafios enfrentados por um casal de cadeirantes para cuidar de um bebê. Como será levar duas cadeiras de rodas, um bebê conforto, um carrinho e a bolsa repleta de fraldas, lencinhos umedecidos, chupetas etc?Enfrentaram alguma espécie de desconfiança dos outros sobre a capacidade de terem,  cuidarem e educarem uma criança? Curiosos para saber as respostas dessas perguntas então curtam o papo que bati com o Marcos Zufelato, pai de primeira viagem de uma princesa.
Quem é Marcos Zufelato?
Bem, Marcos Zufelato, é um Corinthiano nascido em Santa Rita do Passa Quatro, SP, interior de São Paulo, que no 4º ano de faculdade sofreu um acidente automobilístico, mais precisamente em 07/06/1997, o qual deixou como resultado uma paraplegia em nível T12/L1. Fiquei um tempinho afastado, 7 meses ao todo, e consegui voltar as minhas antigas rotinas, tanto de trabalho, tanto de estudo. Conclui meu curso em 1998 e desde então sigo uma vida como a de qualquer brasileiro que trabalha, estuda, acerta, erra, etc.
Fale-nos sobre sua deficiência e como você, seus pais, familiares e amigos “digeriram” tudo isso?
Em virtude do acidente relatado fiquei com lesão completa na medula, o que me deixou usuário de cadeira de rodas, desde o dia seguinte após minha cirurgia no HC de Ribeirão Preto já fiquei pensando em como eu iria voltar as minhas atividade numa cadeira de rodas. Claro que eu não queria isso, mas eu tinha que ter um plano A e um B. O A, óbvio, voltar a andar, e o B, retornar a minha vida. Uma coisa que sempre se passou na minha cabeça foi que seu eu caísse, iria levar junto minha família, e isso eu não poderia deixar acontecer. Na época a família de meu pai, a qual eu era mais apegado, só tinham como netos/sobrinhos, eu e meu irmão, e foi um baque muito grande para todos, claro que também aos meus pais. Então, decidi adaptar a minha vida na nova realidade. Para isso tive que provar a todos os familiares que eu tinha condições de ter uma vida normal novamente, e foi o que eu fiz, após 7 meses voltei para Bragança Paulista, cidade onde morava na época do acidente, e de quebra morando sozinho, na verdade com uns amigos, num tipo de república.
Como você conheceu sua esposa?
Minha vida daria um livro de tantas histórias que eu poderia contar, mas de maneira breve.... Após vários anos de cadeirante, minha vida deu uma mudada bastante grande e fui morar em Ribeirão Preto, lá na época vi o anúncio de um novo blog sobre cadeirantes/deficientes, e desde minha deficiência nunca tinha tido contato com outros deficientes, nem por internet. Lendo este blog vi relatos de pessoas que levavam a vida como eu, como qualquer pessoa sem deficiência e isso me atraiu. Pois bem, num certo dia, eu tinha que levar minha avó para São Paulo para fazer uns exames e coincidentemente haveria no mesmo final de semana um encontro presencial de leitores desse blog.
Fui lá ver o que iria acontecer.... Conheci várias pessoas e fiz uma grande amizade com dois em especial, o Zé e o Lúcio. Pois bem, quando após diversas cervejas e grandes risadas eu noto a presença de uma cadeirante linda, toda poderosa, é uma coisa que nunca tinha acontecido antes... Senti uma atração enorme.. Por uma cadeirante!!!! Aí, pergunto aos amigos de copo quem era aquela mulher!!!???
“Vc não conhece? É a Natalia, de Brasília!!! Vc não leu a história dela no blog??”
Claro que eu tinha lido, mas não associei o nome a pessoa.
Cerveja vai, cerveja vem, e fui um dos últimos a ficar e sempre no final de festa as pessoas se aproximam e começam a conversar. Foi a minha deixa!!! Ela se aproximou da roda e como eu já não estava com a língua presa, comecei a tecer elogios para ela, mas os mais ridículos que você possa imaginar....
Até que o povo começou a juntar as mesas e fomos embora. Pedi seu telefone e ela, maldosamente, me deu errado.
Naquele dia fiquei também com o contato da Cybele, salvadora da pátria, que era amigona da Natalia e me passou o contato dela.
Começamos a conversar, muito, até que um dia ela me disse que iria para minha cidade fazer uma prova. Prontamente me disponibilizei para acomodá-la em casa e também em ir buscá-la no aeroporto. Ela aceitou a última. Pois bem, eu tinha apenas uma chance. Sugeri a ela de irmos tomar um chope, em Ribeirão faz um calor danado!!!, e ela topou. O desafio era eu me virar com duas cadeiras de rodas, até então eu usava aquelas cadeiras em X da Ortobras e sempre alguém tirava e colocava para mim no porta-malas.Vencido o primeiro desafio, a noite foi muito divertida e conversamos por horas... Até alguém pedir para irmos embora... Feito isso, no caminho para o hotel ofereci um tour pela cidade e em determinado lugar, fazendo uma curva, de maneira bastante corajosa, dei-lhe um beijo, o qual foi prontamente retribuído. De lá para cá já são mais de 6 anos e muitos outros beijos!!!
Pelo fato de você e sua esposa serem cadeirantes, vocês enfrentaram alguma espécie de desconfiança dos outros sobre a capacidade de terem,  cuidarem e educarem uma criança?
Nunca me disseram nada e também não percebi muito claramente esse tipo de desconfiança, mas isso é implícito quando veem dois cadeirantes e um bebê. A sociedade desconhece a realidade de um deficiente, muito mais ainda de um casal de cadeirantes. Mas no início eu sempre reparava quando as pessoas ficavam olhando nós dois, agora essa “olhada” aumentou exponencialmente. Mas isso não me incomoda, aliás, acho até que serve para mostrarmos que levamos a vida como qualquer outra pessoa.
E como é a sensação de ficar “grávido”?
Inexplicável. Mas posso lhe garantir que é uma sensação incrível. Você ver aquele “serzinho” ir crescendo aos poucos, ir acompanhando cada nova etapa desse desenvolvimento, realmente é magnífico!!! O dom da vida realmente é divino e não tem como não acreditar em Deus, pois a perfeição é incrível!!
E como vocês fazem para levar duas cadeiras de rodas, um bebê conforto, um carrinho e a bolsa repleta de fraldas, lencinhos umedecidos, chupetas etc?
Somos um casal que planeja tudo, sempre fomos assim e isso sempre foi uma marca do nosso relacionamento. Quando decidimos ter um filho planejamos tudo o que você possa imaginar, desde a troca de apartamento, até qual carrinho de bebê comprarmos. Tudo tem seu motivo e sua necessidade. Um exemplo é o carrinho de bebê. Note que a grande maioria dos carrinhos são baixos, mesmo com o bebê conforto. Como não temos equilíbrio de tronco suficiente para pegar algo baixo e subir sem precisar de apoio, precisaríamos de um carrinho alto suficientemente para que tanto eu, quanto a Natalia, pegássemos o bebê com as duas mãos sem o perigo de perder o equilíbrio.Procuramos e achamos, e posso lhe garantir que foi perfeito!!! De uma maneira geral, eu coloco o carrinho e a cadeira da Natalia no porta-malas, o bebê conforto fica atrás do banco passageiro, a Natalia vai também no banco de trás, para eventualmente auxiliar o bebê em alguma coisa e eu coloco minha cadeira no banco do passageiro na frente e as rodas atrás do banco. Tudo o que planejamos em termos de cadeiras, bebê, carrinho, etc. Esta dando certo, mas foi muito bem pensado antes, mas cada caso é um caso, né. Outro casal pode ter outras necessidades ou outras facilidades.

E como é o quarto de um bebê cujos pais são cadeirantes?Vocês precisaram fazer alguma adaptação? E como são essas adaptações?
É um quarto comum, não precisamos fazer nada de adaptação, a única coisa que não é o convencional é  trocador da Rafaela que não fica numa cômoda, pois fizemos uma mesa para entrarmos com as pernas embaixo dela, como uma mesa de escritório. O resto é tudo exatamente como um quarto de bebê cujos pais são  “andantes”.
Você é um pai participativo, ou seja, troca faldas, levanta-se durante a noite quando ela chora, dar banho, etc?
Sim, 100% participativo. Peguei um atestado de acompanhamento e ficarei em casa 30 dias após a licença paternidade, para poder justamente fazer tudo o que for possível em relação a Rafaela e também para a mamãe. Dou banho, troco fraldas, coloco para rotar, faço dormir, dou banho de ofurô. Etc. E faço com um prazer enorme!!!!



Que mensagem você deixa para os leitores e leitoras desse blog?
Difícil essa.... Vou tentar... A deficiência me limitou sim, mas não a deixei tomar conta da minha vida. Desde o dia que fiquei na cadeira de rodas eu decidi continuar a minha vida, mesmo que fosse nessa cadeira e é o que a Natalia também faz, ela ainda teve o revés quando criança, eu já tinha 23 anos. Então não torne a deficiência  sua limitação intransponível, busque uma maneira de lidar com ela e leve uma vida como outra pessoa qualquer, claro que falar é fácil, mas se você não tentar, nunca irá conseguir. O “não” você já tem, busque o “sim”. Uma outra mensagem que digo é uma que sempre falei: não faça da sua deficiência seu meio de vida.
Marcos, muito obrigada por compartilhar sua história e por nos alimentar com a sua mensagem. E um feliz dia dos pais para vocês! Já para a princesinha, como se diz aqui no Nordeste, um cheiro no cangote!!

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