terça-feira, 15 de novembro de 2016

Márcia Gori, fala dos lugares das mulheres e das pessoas com deficiência





Gente, a entrevista de hoje é com a Márcia Gori que na minha opinião é uma mulher cheia de personalidade e determinação em seus anseios.Já para Adriana Buzelin, ela “[...] é uma mulher única. Grande referência quando o assunto é o gênero feminino e suas nuances”. Mas, quem é essa mulher? E o que possibilitou essa mulher se tornar referência nesses assuntos? Curiosos?! Então, confiram a entrevista abaixo.
Quem é Márcia Gori?
R: Uma pessoa que sonha com um mundo melhor, empoderamento da Mulher com Deficiência, ter paz.
Descreva um pouco a sua deficiência e como você, seus pais, familiares e amigos “digeriram” tudo isso?
R: Tive pólio aos 9 meses de idade, estava começando a andar, uma criança saudável, gordinha e de repente tem uma febre forte que deixa prostrada. Foi difícil para minha mãe, ela sofreu um luto, haja vista que foi de assalto, porém foi forte, fazendo-me estudar, ter uma formação era ponto de honra pra que eu tivesse chances no futuro.
Como foi sua infância e adolescência?
R: Foi normal, brinquei muito com os amigos dos meus tios, soltei pipa, andei de carrinho de rolimã, joguei bolinha de gude, brinquei de boneca, tive amigos fantásticos que nunca viram dificuldade em estar junto comigo.
Namorei bastante, saia quase todas as noites e dei trabalho como toda adolescente.
Fale um pouco de como foi sua vida escolar e acadêmica. E por que você escolheu o Direito?
R: Fui incluída em escolas públicas em 1970 sem diferenças com os outros, era bagunceira, adorava conversar na sala de aula, como toda criança saudável e sem deficiência.
Sempre tive amigos, adoro pessoas, não tem como não gostar, é o melhor produto que temos pra trabalhar. Tanto na escola como na faculdade não senti preconceito com minha deficiência, mas tenho dificuldades com minha personalidade, porque sou uma pessoa complexa.
O Direito foi uma escolha mais por conhecimento da legislação, devido a militância o conhecimento é imprescindível, para o auxílio em nossas demandas, que diga-se de passagem não são poucas. Agora depois de 12 anos de formatura, irei tirar minha OAB e vamos fazer a diferença na sociedade.
Você é colunista colaboradora de algumas revistas sobre inclusão. Em sua opinião, como a grande mídia vem retratando e veiculando a imagem das pessoas com deficiência?
R: Avançamos consideravelmente em questões de direito, de qualidade de vida, pois as Conferências vem nos ajudando muito a fomentar novas Políticas Públicas junto aos movimentos sociais. A grande mídia ajuda bastante na desmistificação de temas ligados em nossas vidas, tais como sexualidade, violência, acessibilidade, entre outros, porém por outro lado temos muito ainda que discutir e construir em nossa caminhada, mas o que mais me irrita são os pára-quedistas que vem discutir alguns temas, como se fossem pioneiros e desconstroem todos os trabalhos anteriores como se estivessem descobrindo a roda e o fogo, vamos parar com isso, mesmo porque tem muita gente boa no mercado que também tem trabalhos maravilhosos, representativos e de grande valor para o segmento.Um pouco de respeito sempre é bom.
Como presidente da ONG Essas Mulheres, nos fale quais os objetivos, avanços e dificuldades da mesma?
R: Os objetivos da Essas Mulheres é bem claro, levar o empoderamento da Mulher com deficiência com discussões sobre gênero, sexualidade, violência e a importância dos Assistentes Eróticos em nossas vidas.
Estamos avançando a pequenos passos até por falta de recursos e com o Brasil no meio dessa transição anti-democrática fica um pouco mais difícil, mas temos força e uma boa equipe.
Na sua opinião,  por que ainda há um silenciamento das mulheres com deficiência, presidiárias, ciganas, indígenas dentro dos feminismos?
R: Entendo que seja por medo, porque vivemos em uma sociedade patriarcal, com mídias que incentivam a desvalorização da mulher. Temos que entender que vivemos em um País que as informações circulam de forma truncadas e pela metade, escolas que não discutem questões de gênero, sexualidade, entre outros temas importantes em nosso dia a dia, ficando a desejar a informação e a reflexão coletiva feminina.
Também não podemos deixar de pontuar que até no século passado, o entendimento sobre feminismo era bem preconceituoso, porque era ensinado pelas próprias mulheres que feministas eram lésbicas que se revoltavam contra os homens por inveja de não terem seus pênis (como se isso fosse um dote divino), baderneiras, entre outras situações de desvalorização de lutas de milhares de mulheres que iam às ruas para garantir conquistas de direitos para questões de gênero.
Em grupos do facebook, especificamente, aqueles criados por pessoas com deficiência encontramos inúmeras postagens de membros reclamando que não conseguem viver um amor ou aquela paixão, e até outras que relatam que desistiram de viver qualquer tipo de relacionamento amoroso. Se você tivesse a oportunidade de se reunir com todas essas pessoas o que diria a elas?
R: Atualmente as dificuldades de se relacionar está igualando para todos os seres humanos, porque atualmente vivemos uma época de isolamento social, estamos mais na internet do que cara a cara com as pessoas, um distanciamento físico, porém estamos mais invadidos em nossa privacidade, menos segredos... rsrsrs...
Não podemos desistir de querer amar ou viver uma paixão por conta da deficiência, mas iniciarmos um processo de aceitação de nossas qualidades, limitações, acreditar em nosso potencial e investir em nós mesmos, porque o medo de  se machucar? Quando uma paquera se inicia tudo pode acontecer, e as dores da rejeição nos faz crescer e nos ajuda a nos encontrar na intimidade, averiguando todo o nosso potencial.
Somos educados por nossos pais a não arriscar em romances, é compreensível esta atitude da parte deles, haja vista que eles sofreram todo o processo de nossa deficiência antes mesmo de criarmos consciência dos acontecimentos conosco, seja por doença ou acidente, mas isso não nos tira o direito de tentar, arriscar e viver. Então arrisquem-se e vivam as suas vidas.
Na sua opinião, quais as maiores dificuldades enfrentadas por uma grávida com deficiência?
R: Falta de informação dos profissionais da área da saúde, ainda temos médicos que sugerem abortos à gestantes com  deficiência, ora por falta de informação, ora por preconceito não declarado. Infelizmente ainda existem pessoas na sociedade que pensam que não somos capazes de seguir em frente, uma sociedade capacitista.
Nos fale como é trabalhar com a Kica de Castro. E quais os tipos de trabalho que você faz, como modelo?
R: É muito bom trabalhar com a Kica de Castro, ela é muito pró ativa, muito a frente do nosso tempo. Somente faço alguns trabalhos com ela quando envolve grandes polêmicas, mesmo porque faz parte do meu perfil.
Como feminista, mãe e pessoa com deficiência como você vê a reabertura da discussão do aborto nos casos de microcefalia?
R: Em minha opinião, essa decisão cabe à mulher, porque o corpo é dela e depois ao casal, não deveria envolver religião, pois é a vida da pessoa que será modificada e a mulher deve saber se está preparada ou não para enfrentar todas as mudanças que isso trará em sua vida.
Ela deve ter em mente que 90% dos casos o homem não assume essa empreitada, porque em suas concepções machistas o “defeito” está com a mulher e jamais com ele, é uma caminhada solitária, por esse motivo a decisão deve ser da mulher, sempre.
Como você analisa o Movimento das Pessoas com Deficiência, nas últimas duas décadas?
R: Um movimento forte, apelo social legitimo, porém ferozmente canibalista, o que mais chama a atenção é que quem detém o poder já percebeu esse perfil do movimento e alimenta isso descaradamente com a anuência da maioria, não disfarçam o processo.
Evoluímos muito em nossas conquistas, devido a muitos militantes aguerridos que foram incansáveis em suas lutas e o Brasil é um dos países mais avançados na legislação sobre direitos da pessoa com deficiência.
Agora estamos em momentos diferentes que estamos levantando outras bandeiras, tais como Direitos Sexuais e Reprodutivos, violência, feminismo na deficiência, questões de gênero, LGBTTT, Assistentes Eróticos, Devoteísmo, prostituição na deficiência, tráfico de pessoas com deficiência, entre outros...
Diante desse momento conturbado que o país vive, o que você espera para o futuro de nossa nação?
R: Paz entre os povos, a nossa Democracia de volta e que o povo acorde e parem de eleger pessoas de má-fé.
Que mensagem você deixa para os leitores desse blog?
R: Que tenhamos mais ética entre as pessoas, respeito pelo trabalho alheio.
Márcia,muito obrigada por compartilhar sua história e por nos alimentar com a sua mensagem. E se você gostou curta, compartilhe e me acompanhe nas redes sociais Facebook// Instagram//Twitter

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