sexta-feira, 12 de maio de 2017

A relação entre o Dia das Mães e o trabalho das Pessoas com Deficiência

Eu  nem tinha nascido e já ouvia falar, lá do lado de fora da barriga, sobre o presente do dia das mães… Logo na sequência algumas dúvidas passaram a perturbar a minha mente: Quem é essa tal de mãe? Quando será esse dia? E onde encontramos esse  presente?
Se você acompanha este blog já deve ter descoberto as respostas para as três questões. Agora se é a primeira vez que você vem aqui tenho que explicar algumas coisas antes.
Sobre minha mãe
Minha mãe me carregou na barriga durante nove meses. Ela ganhou peso,  me amamentou, trocou minhas fraldas e destinou, por anos, uma grande parte dos salários dela para pagar as consultas, exames e tratamentos na esperança de me ver um dia andando, pulando e correndo como as demais crianças. Apesar de todo o investimento ela nunca conseguiu me ver sair, por aí, correndo e pulando como as outras crianças da minha idade.Agora diz aí: “Por tudo isso, ela merece ou não merece o meu amor, respeito e carinho incondicionais?!”
As descobertas
E foi no momento em que eu descobri que comprar um presente era apenas uma das inúmeras formas de agradecê-la pela minha vida é que veio outras descobertas.A primeira é que precisamos de um negócio chamado dinheiro para comprar e levar o presente para minha mãe, a segunda descoberta é que dinheiro não cai do céu e que meus pais faziam uso dele  para comprar e pagar coisas, como meus médicos, exames, passagens etc.
Esse dinheiro era fruto de muito esforço,  possuía uma origem, que era o trabalho deles daí eu nunca tive a cara de pau de pedir dinheiro a minha mãe para comprar presentes para ela.
A partir daí eu dizia para mim mesma: “Quando eu crescer eu vou trabalhar, ganhar dinheiro e comprar presentes para minha mãe.”Mas, o tempo foi passando, minha irmã mais jovem do que eu começou a trabalhar no comércio, ganhar dinheiro e comprar coisinhas para ela  e  eu sem trabalho e sem dinheiro para comprar uma rosa para minha mãe.
E foi a partir desse momento que eu comecei a perceber que eu nunca tinha visto uma pessoa com deficiência trabalhando em Caicó. Afinal de contas, a mais de 10 anos atrás não havia em Caicó lojas, escritórios, bancos com rampas, corrimão, banheiro adaptado, ou seja, os itens da cesta básica da acessibilidade.
Então, eu só possuía duas opções naquele momento:1)Passar o dia em casa assistindo Tv Globinho, Sessão da Tarde, Vale a Pena Ver de Novo, as novelas etc. 2) Investir nos meus estudos.E foi com minha entrada na universidade que eu descobri que eu poderia ser uma pessoa bem sucedida como meus professores e eu ouvia atentamente as histórias deles,tentava descobrir que caminhos eles percorreram,que dificuldades enfrentaram.
E quando eu ainda estava no 7° período da faculdade surgiu um concurso para professor da rede pública. E uma das minhas professoras nos deu o seguinte conselho: “façam esse concurso como uma experiência assim, vocês vão aprendendo a se organizar, aprender em média quanto tempo você gastará em cada questão, a buscar exemplos de provas anteriores que aconteceram pela mesma banca examinadora, prestar a atenção no modelo das questões, estudar o edital, montar uma estratégia para entender quais serão as prováveis perguntas”.
Então, eu resolvi seguir o conselho da professora e para minha surpresa eu quase não conseguia fazer a inscrição do concurso, pois como a inscrição naquele tempo era presencial a pessoa não queria que eu fizesse a inscrição alegando que eu não era graduada e eu jamais poderia assumir se eu fosse aprovada. E nós explicamos que a minha intenção era ganhar experiência. Até que uma colega dela se meteu na conversa e falou: “fulana, faça a inscrição ela só quer adquirir experiência, ela é consciente que mesmo que seja aprovada ela não poderá assumir.”
A muito contragosto ela fez a minha inscrição e para minha surpresa dias depois o concurso foi adiado e a prova só veio a ser aplicada quando eu estava concluindo o 8° período da faculdade. E nesse intervalo de tempo de quase um ano eu me dediquei a estudar para o concurso, fui aprovada e para minha surpresa chamada faltando menos de um semestre para eu concluir o curso.
Meu curso era licenciatura e bacharelado e eu já tinha concluído todas as disciplinas da licenciatura e estava na fase de escrita da monografia e eu fui falar com meus professores para saber se eu podia concluir antes da turma, pois eu tinha que ter meu diploma nas mãos até o início de junho e eles disseram que 10% dependia deles (orientação, correção etc.) e os outros 90% dependia de mim.
Para facilitar a minha comunicação com minha orientadora e para que eu não perdesse tanto tempo escrevendo a mão toda vez que fosse preciso reescrever partes do trabalho, minha mãe fez um empréstimo e comprou um computador. E eu passava dias e noites lendo, escrevendo, apagando...
E eu consegui concluir a monografia, colei grau individualmente e meus professores agilizaram a entrega do meu diploma, pois eles sabiam que a carreira pública numa cidade como  Caicó, naquele momento, era praticamente o único caminho possível para que uma pessoa com deficiência conquistasse seu lugar no mercado de trabalho. Afinal de contas, no concurso diminui  o poder de atuação da rede discriminatória que existe de forma velada nas empresas, pois o que vale  é  o conhecimento para ir bem nas provas.
Todavia, tempos depois quando eu passei no meu mestrado veio uma pessoa e fez pouco da minha aprovação quando soltou a seguinte pérola: “Mas, você só foi aprovada graças a reserva de vagas”. Essa pessoa não sabia  que na seleção do mestrado eu não contei com exigência mínima de pontuação para ser aprovada…eu concorri de igual para igual com as demais pessoas.
E nesse momento, eu percebi que existe também um grande preconceito das pessoas em relação a reserva de vagas, pois se imagina que só porque tem vaga para pessoas com deficiência, o concurso já está no papo quando na verdade o nível das provas é o mesmo tanto para pessoas com e sem deficiência bem como o número de candidatos com deficiência está cada vez maior. Tem que estudar muito!
Nesse sentido, apesar do Dia das Mães ser uma data comercial e muita gente não gostar dela, para mim a possibilidade de poder presentear a minha mãe vem acompanhada de outros significados.Já que no trabalho convivo e interajo com outras pessoas, sou valorizada e ainda, me pagam para isso.
E graças a estes pagamentos  possuo hoje poder de compra e posso comprar além de um presente no dia das mães, posso pagar meu plano de saúde, ter uma vida digna e continuar caminhando junto com ela na direção de novos objetivos.
Então, se você não poderá comprar um presente para sua mãe esse ano a dica é substituir a tristeza pela persistência, ou seja, nunca desistir diante dos obstáculos, das adversidades ou mesmo diante do preconceito.  

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