segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Jornalista com deficiência fala sobre os erros da mídia ao abordar o tema da inclusão


Apresentação de um artigo sobre pessoas com deficiência e a mídia na ESPM-SUL
Geeente, já faz um tempinho que eu acompanho o perfil @deficienciaemfoco e venho notando o sucesso que ele vem fazendo nas redes sociais.  
Daí resolvi entrar em contato com o criador do perfil e perguntei se ele topava falar um pouco da sua história e do seu trabalho. Ele não só aceitou como também me surpreendeu, pois percebi ao longo da entrevista que o cara possui os 3 F do sucesso (#Foco, #Força e  #Fé). Curiosos para conhecê-lo? Então, vejam a entrevista abaixo 
  
1- Quem é Antônio Silva? 
  
O Antônio é alguém inquieto que sempre buscou entender o porquê das coisas. Nada no mundo acontece por acaso, tudo tem uma explicação, e eu sempre busquei entender isso. Desde muito cedo, busco entender as coisas ao meu redor, antes mesmo de iniciar na escola fui alfabetizado pela minha mãe, aprendi a ler e escrever em casa. Esse interesse pelas coisas e como elas funcionam me levou ao jornalismo e a entender a presença, ou melhor, a ausência de pessoas com deficiência na imprensa tradicional. Assim como também tenho o gosto pela pesquisa na área acadêmica, já tenho dois artigos prontos que relacionam comunicação e pessoa com deficiência e mais um em construção sobre a representação da pessoa com deficiência na mídia, além de muitos em mente (hehe).  
  
2- Fale-nos sobre sua deficiência e como seus familiares e amigos entenderam, essa condição humana? 
A minha deficiência é originária de uma ameaça de paralisia cerebral, que atingiu o desenvolvimento da minha perna direita, causando o encurtamento dos nervos. A deficiência só foi descoberta aos 02 anos de idade, pois eu não conseguia andar. Com isso, passei pela minha primeira cirurgia de correção, na qual foram operadas as duas pernas, sendo que era necessário operar só a direita. Dos dois até os 11 anos essa foi minha rotina, entre cirurgias (08) no total e muitas sessões de fisioterapia, mais de 10 anos sem parar. Sempre conciliei essa rotina com a escola e nunca atrapalhou. 
Na família sempre foi muito tranquila a questão da deficiência, nunca fui tratado com diferença ou “poupado” de fazer alguma coisa, sempre fiz qualquer coisa que outra criança fazia, mas claro sempre respeitando meus limites, o que também ajudou a me conhecer e aprender a lidar com as dificuldades do dia a dia. Na escola foi a mesma coisa, sempre tive o respeito de colegas e professores, e talvez pelo fato de já saber ler, acabava me destacando na turma e o que de certa forma “anulava” algum sentimento de pena ou diferença. 
Vale destacar aqui a importância da AACD na minha vida, foi na unidade de Porto Alegre/RS que fiz meus últimos anos de tratamento e minha última cirurgia. Esse período de AACD foi fundamental para meu desenvolvimento. 
Poucas vezes na vida passei por algum episódio de preconceito, até porque nunca deixei as pessoas me classificarem pela deficiência e sempre fiz tudo o que queria fazer, já que sempre busquei uma forma de fazer as coisas dentro das minhas limitações. 
Meu quadro hoje é de mobilidade reduzida e pouco equilíbrio, devido às cirurgias, nunca consegui recuperar totalmente os movimentos, minha maior dificuldade são escadas sem corrimão, no mais consigo me locomover tranquilamente.  
3-Por que você escolheu o jornalismo? Como você se define jornalista? 
  
Escolhi o jornalismo por gostar muito de esportes, especificamente futebol, porém, no decorrer do curso mudei minha visão e resolvi me dedicar a área das pessoas com deficiência, visto que existem poucos veículos e ainda há muito a se explorar nessa área. Além disso, invisto em pesquisas científicas que buscam entender a relação da pessoa com deficiência e a mídia, sempre dando espaço para as pessoas participarem das pesquisas.  
Como jornalista me defino como alguém que combate a ideia da imparcialidade, pois ela não existe, ela apenas é usada como forma de vender uma falsa ideia de isenção para as pessoas. E outra quem não tem lado pende para qualquer lado e isso é perigoso. Além disso, os movimentos midiáticos estão cada vez mais segmentados muito em breve a figura do jornalista “isentão” deixará de existir. 
4- Como o mercado de trabalho o recebeu?  
O mercado não está pronto para algum jornalista com deficiência, isso é fato. No meu caso sempre tive bons contatos, mas mesmo assim o olhar das pessoas e a “surpresa” em ver uma pessoa com deficiência cobrindo seu evento atrapalha um pouco. As principais questões que dificultam o trabalho é a falta de acessibilidade tanto das empresas quanto das cidades, mas isso como disse sempre consegui “driblar”, mas sempre que tenho a chance cobro das pessoas a possibilidade de melhora dos ambientes. De modo geral, os gestores precisam mudar a forma de pensar e investir em acessibilidade e inclusão, além disso, dar a oportunidade ao profissional é essencial para mudar a forma das pessoas pensarem sobre o profissional com deficiência. 
Realização de Cerimonial de um evento - atividade de assessoria de imprensa
5-Conte-nos sobre seu blog/Instagram/Facebook “Deficiência em Foco”? Como, quando surgiu e qual a meta do blog/Instagram/Facebook? 
A Deficiência em Foco surgiu devido ao meu trabalho de conclusão de curso (TCC), no qual fiz uma análise da representação midiática da pessoa com deficiência na Revista Incluir, na época uma das principais publicações do ramo, porém, extinta atualmente. Além da análise do conteúdo da revista, fiz uma pesquisa com pessoas com deficiência para saber o que consumiam, como e o que elas gostariam de receber de informações. Inicialmente a Deficiência em Foco era apenas um grupo no Facebook onde reuni pessoas para fazer as pesquisas, depois veio a página e o Instagram. Além de aplicar a minha pesquisa pude perceber que o resultado dela realmente aconteceu, hoje tenho em média mais de 65 mil visitas/mês no Facebook. Ainda estou testando um site que em breve será lançado oficialmente. 
A meta é seguir crescendo e investindo em novos conteúdos, primeiro fiz uma abordagem simples dos direitos fundamentais da pessoa com deficiência, depois comecei a investir em reportagens e diversas formas de interação com os seguidores, o resultado disso geralmente viram pautas na página. 
No futuro próximo a ideia é lançar o site totalmente acessível, e reunir jornalistas de todo o país para produzir conteúdo destinado a pessoa com deficiência. 
 
6-Como é a interação com os seguidores/leitores do blog/Instagram/Facebook? 
A interação é ótima, recebo muito retorno dos posts, inclusive de outros países de língua portuguesa, recentemente recebi o relato de um angolano que acompanha a página. Recebo muitas perguntas e questões relacionadas aos direitos da pessoa com deficiência. Tanto é que lancei um quadro no Youtube chamado “Dr. Responde” onde um advogado amigo meu responde questões dos seguidores. Estou preparando novos conteúdos em vídeo, além das séries especiais como “pessoas com deficiência na história” que já estão nas redes. Além disso, em breve terei um ciclo de palestras sobre o tema.   

7- Você concorda que a internet é mais inclusiva do que a mídia impressa (jornais, revistas) e a mídia eletrônica (televisão e rádio)?    
Concordo em partes, pois os sites precisam oferecer os mecanismos de acessibilidade, que além de lei, são essenciais para as pessoas com deficiência. Na mídia impressa é sim bem mais difícil, mas ai é preciso inovar, por exemplo, no jornal onde trabalho lancei recentemente a possibilidade de acessar os conteúdos com um QrCode, sei que não é o ideal, mas já ajuda um pouco, e sigo pesquisando formas de tornar o conteúdo acessível. O rádio é um grande aliado das pessoas com deficiência, na minha pesquisa muitos disseram que ouvem rádio, talvez pela linguagem acessível e o som, ajudem algumas pessoas a se identificarem. Já a televisão ainda precisa se adaptar, visto que poucos são os programas acessíveis. De modo geral, estamos longe de oferecer acessibilidade na mídia, porém, iniciativas simples com a descrição da imagem podem ajudar.   

8- Como a mídia vem retratando e veiculando a imagem das pessoas com deficiência ?    
A mídia pouco retratada e quando retrata, faz isso de forma errada, ou somos coitados ou somos heróis e exemplo de superação ou coitados e inválidos. Isso atrapalha e gera uma exclusão, pois parece que precisamos ser super-humanos para conseguir alguma coisa. Além disso, ainda é comum ver publicações nos chamando de portadores, que temos necessidades especiais ou especial, sendo que há mais de 10 anos a terminologia correta é pessoa com deficiência. Tem gente que diz que terminologia é besteira, mas ela é o primeiro passo no processo inclusivo.   
Apresentação de um programa de rádio na universidade no programa os três integrantes tinham alguma deficiência
9-Até que ponto a mídia brasileira está cumprindo o seu papel de informar e conscientizar a população brasileira, quando o assunto é a inclusão das pessoas com deficiência?  
A mídia brasileira em todos os sentidos pouco informa, o que há é um grande conglomerado de anunciantes que pautam a imprensa e comandam a geração de notícias. Informar é ir além do óbvio, dar a noticia com diversas fontes e contrapontos, e deixar o consumidor dela opinar, e isso não acontecesse no nosso país, muito também se deve a cultura da imparcialidade. Falando especificamente das pessoas com deficiência voltamos ao cenário de erros comuns como de terminologia e a falta de uma matéria mais profunda, ir além do obvio e realmente tratar o tema como ele merece, sem falar do heroísmo e coitadismo nas matérias. 

10- Em sua opinião, quais são os erros da mídia brasileira ao abordar o tema da inclusão? Como eles podem ser corrigidos? E que perigos esses erros podem trazer para a sociedade como um todo?   
O grande erro é querer transformar as pessoas com deficiência em grandes heróis ou em coitados que precisam de alguém para tudo, além disso, a grande maioria das matérias são rasas e óbvias, sem falar de que poderiam abrir espaço para as próprias pessoas com deficiência falarem delas e da sua deficiência. O perigo disso, é atrasar o processo inclusivo, a terminologia errada, os coitadismos, a infantilização, tudo isso afeta o processo de inclusão e alimenta o estereótipo de as pessoas com deficiência são incapazes. 
  
11- Você acredita que a Legislação brasileira que protege as pessoas com deficiência e estabelece a inclusão social virá a ter algum efeito substancial? O que você considera eficaz para o Brasil melhorar em termos de políticas públicas para as pessoas com deficiência?    
Acredito que toda a questão envolve pequenos passos, e nos últimos anos já demos vários. A Lei Brasileira de Inclusão é ótima, uma das melhores e mais completas do mundo, porém, ainda falhamos na aplicabilidade o que com o tempo vem sendo corrigido. Assim como a aplicação da Lei de Cotas e outras leis que temos. O que falta e pesa nessas decisões é a participação das pessoas com deficiência nas construções dessas leis, mas ai entramos em uma outra esfera que é o interesse e a possibilidade de cada um participar. Conheço vários exemplos de políticas públicas bem aplicadas como na lei de cotas, mas ai temos que considerar a realidade de cada local e a forma de fazer, esse é o grande desafio conhecer e trabalhar nas peculiaridades de cada local. 
A melhora nas políticas públicas, consiste na participação da pessoa com deficiência nas decisões, desde o conselho municipal até os cargos eletivos, é preciso que haja representação.   
Perfil
12-Você concorda que ainda existe uma espécie de silêncio,(por parte dos blogs, canais de youtube, Instagram e Facebook produzidos por pessoas com deficiência), quando os assuntos são educação financeira,empreendedorismointraempreendedorismo etc?  Por que as pessoas com deficiência ainda possuem dificuldade em falar sobre esses assuntos em detrimento a outros assuntos como sexualidade, moda, etc? 
Talvez a palavra certa não seja silêncio, mas sim falta de preparo e conhecimento de causa. Quando se fala em deficiência, se abre um leque imenso de possibilidades e cada caso é um caso. Todos esses temas vão ao encontro do interesse e da necessidade de cada segmento, por isso, a pesquisa e a produção de conteúdo são essenciais para despertar o interesse da comunidade e assim conhecer os interessados. 

13-Quais são seus planos para o futuro? Como você enxerga o futuro do blog/ instagram/facebook Deficiência em Foco? 
Meus objetivos profissionais são transformar a Deficiência em Foco em um grande canal de comunicação voltado para pessoas com deficiência, produzindo diversos conteúdos e ao mesmo tempo coletando dados para pesquisas científicas na área. As redes sociais me dão grande possibilidade de alcance e de conhecimento de diversas realidades, com isso meu grande sonho é construir um mapa inclusivo e ter esses dados em profundidade, assim poderíamos conhecer a realidade das pessoas com deficiência no Brasil. Tenho também ideia de alguns livros e outros conteúdos, porém, ainda não estou pensando nisso a ponto de materializar.   
14-Que mensagem você deixa para os leitores do blog? 
Minha mensagem, é minha vida: Seja você mesmo e sempre busque formas de realizar seus objetivos. Todos de um jeito ou de outro temos dificuldades então cabe a nós decidir o que vamos fazer com ela. Ter respeito por si mesmo e pelos outros, princípios e fundamentos de vida nos fazem chegar onde quisermos. 

⇒As redes: 
⇒Caso alguém queira consultar aqui está o meu TCC: Jornalismo Especializado e Pessoa com Deficiência: Uma análise da Revista Incluir: http://biblioteca.feevale.br/monografia/MonografiaAntonioJanielIenerichSilva.pdf  
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